Posts com a tag "torcida"
BOLEIROS – MESQUINHARIA CAMUFLADA Por Equipe Nando Reis
Artigo de 03 de agosto de 2009 da coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de S.Paulo
Assunto polêmico sempre foi, para mim, essa história da diminuição da carga de ingressos para os visitantes em clássicos regionais. Crendo na idéia utópica de que os seres humanos são capazes de conter seus instintos bestiais, qualquer medida que não leve em conta a premissa do direito de escolha me parece cerceadora da liberdade. Portanto sempre achei que já era suficientemente funcional a divisão das arquibancadas, dos portões de entrada, das rotas de acesso ao estádio com, evidentemente, policiamento reforçado. A prática disse o contrário. Os torcedores que confundem rivalidade com ódio se filiam a facções e agrupamentos uniformizados entoando cantos de guerra e extermínio. Esses passaram a se atacar não só nos arredores do estádio, como nas ruas distantes, nas estações de metrô, fazendo emboscadas nas estradas. Ir ao estádio em dia de clássico passou a ser sinônimo de insanidade.
Sou do tempo em que torcedores de times diferentes se misturavam pacificamente em arquibancadas, rampas, ruas, estacionamentos. Quantas vezes já não fui ao estádio com amigos que torcem para outro time, cada um vestindo a camisa do seu clube do coração? Parávamos o carro, cada um seguia para o seu lado, depois do final do jogo nos encontrávamos para tomar a saideira na barraquinha do pernil. No máximo uma gozação, uma frase mais chula pra tirar sarro do eventual perdedor.
Esse tempo ficou pra trás, e há muito. Campo de futebol em dia de clássico virou campo de batalha. Cada família deve ter seu caso triste, uma história ruim de alguém que apanhou ou de um vidro de carro arrebentado por uma pedrada. Tenho a minha: treze pontos no rosto de meu filho. Mas a coisa desandou e passamos do olho rôxo para a roupa preta dos velórios. Muita gente já morreu por conta do futebol.
Portanto as medidas reguladoras têm cabimento e são necessárias. A questão é que elas não conseguem atingir só os que perturbam a ordem, os baderneiros, os briguentos, os assassinos. Ir ao estádio em dia de clássico sempre foi um transtorno. E o maior incômodo deixou de ser a lotação, a dificuldade de parar o carro, a falta de ingressos. O problema passou a ser o de como esconder seu distintivo. Quem já não passou maus bocados parado no trânsito ao lado de um ônibus lotado de torcedores do time rival? Dei essa volta toda pra dizer que nesse domingo passei a entender o significado dessa nova medida, mesmo ela contrariando meus ideais. Fui ao jogo do São Paulo com meus filhos e amigos, todos com a camisa tricolor. Depois de muitos anos, voltei a frequentar o estádio num dia de clássico vestindo a camisa de meu time sem medo de ser agredido ou assassinado. E vi que estava acompanhado de uma horda uniformizada que caminhava livre e altiva. Confesso que me deu uma sensação estranha, ambígua: fui tomado uma felicidade infantil, de quem havia reconquistado um prazer dileto que havia sido tomado. Mas algo me pareceu esquisito, descabido, quase artificial.
Será que é isso que a vida nos exige? Para podermos viver alguns momentos de plenitude teremos que aprender a camuflar nossa identidade? Abrir mão da utopia de que o homem pode ser quem ele é onde quer que esteja? Na metáfora do futebol, você só pode ser são-paulino no Morumbi, palmeirense no Parque Antártica, corintiano no Pacaembu. Se você não estiver no seu território você será inimigo.
Para aceitar uma mesquinharia dessas a gente deveria no mínimo ter direito a uma cerveja.
BOLEIROS – MURITRY Por Equipe Nando Reis
Artigo de 25 de junho de 2009 da coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de S.Paulo.
Estranho mundo esse do futebol. Um técnico legitimamente tricampeão é demitido de seu cargo, após seu time naufragar pela quarta vez seguida no torneio continental que é tido como prioridade pela diretoria do clube que persegue obstinadamente esse outro título, que passou a ser também a obsessão de sua torcida. A torcida insatisfeita com o novo fracasso grita com entusiasmo e paixão o nome do técnico demitido nas arquibancadas, do mesmo lugar onde ela, torcida, assistiu seu time do coração perder a condição de permanecer no torneio que também era o objetivo principal de seus jogadores.
Os jogadores não conseguem coordenar o discurso proferido por todos do grupo, que reafirma a intenção de priorizar o tal torneio. Parecem estar afinados com a torcida e a diretoria nesse quesito, mas não conseguem coordenar três passes seguidos dentro do campo, revelando que essa coordenação verbal não tem correspondência na parte motora. A própria diretoria não conseguiu emitir ordens coerentes durante a jornada que buscava o épico primeiro posto: distraída por um outro campeonato que ela mesma conjugava no diminutivo, acabou fazendo escolhas erradas que dificultaram a trajetória e acabaram criando dificuldades maiores para aquilo que já seria uma tarefa e tanto.
Derrotas sempre precisam de culpados, e nem sempre os responsáveis encontram lógica para dar uma explicação. Quem estará certo? Difícil saber o que se passa dentro dos muros que cercam o ambiente onde trabalha e convive um grupo de profissionais, especialmente desse ramo esportivo – o futebol. Dezenas de seres humanos vivem seu dia a dia lidando com suscetibilidades de todas as naturezas, sejam psicológicas ou econômicas, com variáveis insondáveis que podem ou não determinar o êxito e a harmonia de um projeto coletivo. Sei por experiência própria, pois vivi 20 anos num regime de trabalho também coletivo, no meu caso 20 anos numa banda de rock’n’roll. Tantas vezes ouvi explicações, teorias, análises, críticas que falavam do resultado de nosso trabalho – músicas, discos e shows – e em geral o que ouvia era completamente disparatado, descolado daquilo que acontecia da realidade de sua construção, das próprias motivações, ou das raízes inspiradoras. Mas a realidade não é tão objetiva como pretende a visão de quem opina de fora. Realidade, nesse caso, não existe; é um apanhado caleidoscópico de visões, impressões, expressões divergentes. Não é sequer a mesma para aqueles que estão ali dentro. Tantas vezes vi que o que eu pensava não batia com aquilo que meus colegas de banda pensavam, tantas vezes vi também que nós nem sabíamos por que havíamos tomado certas decisões, tanto as corretas quanto as mais equivocadas. Há muito do acaso nas opções, nas soluções criadas.
Um jogo de futebol, como todo projeto de criação coletivo, é como uma conversa, uma troca. Troca de palavras, de passes, de olhares; troca de ofensas ou de gentilezas, também. E essa sucessão de passes, palavras e olhares criam uma ordem, uma lógica, uma forma particular, uma desenho próprio, uma linguagem única, às vezes só entendida por aqueles que participam dessa conversa. Os que estão de fora apenas ouvem os sons dessa música, talvez sem entender o significado enigmático das palavras inventadas.
Mas quando é possível perceber comunicação, é porque se estabeleceu uma harmonia. E as coisas fluem. Todo torcedor sabe quando seu time não está em harmonia. O futebol jogado em geral é pífio, raquítico, quase antipático. De cima das arquibancadas não se ouve o que é dito nos vestiários, mas será que não é lá de cima o melhor lugar para enxergar o caos escrito no gramado?



