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EM SAMPA, FOI SÓ EMOÇÃO Por Equipe Nando Reis
Tocar em São Paulo é meio como disputar clássico em casa. O time entra em campo confiante, conta com a vibração da torcida, e sente a força da responsabilidade da vitória.
Foi assim com o show do Nando e os Infernais no HSBC, no último sábado (24/10). É sempre bom jogar em casa, principalmente com o paizão na primeira fileira, torcendo.
E a gente trouxe um momento muito especial do show, a música “Conta”, que Nando escreveu em homenagem à mãe, Dona Cecília. Dá até para sentir o gole em seco do artista no início da música, a emoção à flor da pele, enquanto no telão aparecem imagens da sua mãe.
Depois, no camarim, foi a hora da comemoração com a família, os amigos e os fãs também. E já tem gente com ingresso comprado para o show do Guarujá, os fãs de carteirinha do Nando e os Infernais. Danúbia e Felipe, vencedores da promoção na comunidade de fãs do Nando no Orkut, ganharam entradas e curtiram muito o show de Sampa.
Boleiros – Ilusão de Ótica Por Equipe Nando Reis
Artigo de 23 de julho de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Jornal Estado de São Paulo
E Muricy foi pro Palmeiras! Trinta e três dias depois de ser demitido do São Paulo, time para qual deu um tricampeonato inédito na história do clube, o treinador não vai mudar muito o roteiro que segue da sua casa até o endereço do novo trabalho. Será do outro lado do muro que separam os centros de treinamento dos rivais que o técnico tentará repetir a façanha que o consagrou e o elevou ao patamar de grande treinador – a rotina dos títulos. É impressionante a sua marca: não houve um ano nos últimos nove em que Muricy não tenha conquistado algum título pelos clubes que passou. É disso que trata a vida de um técnico, amealhar vitórias. É isso que esperam dirigentes e torcedores, o único ponto onde eles realmente pensam iguais, pois o resto é um desentendimento só: torcedores gostam de contratações, dirigentes gostam de vender jogadores.
E foi justamente a súbita ausência de vitórias que fez com que a diretoria do São Paulo resolvesse demitir o técnico. A obstinação pela Libertadores, o quarto fracasso seguido na busca do título intercontinental, fez com que o ciclo do treinador se encerrasse em plena andamento do Campeonato no qual ele é o maior colecionador de títulos da era dos pontos corridos, justamente porque é aquele que obteve o maior número de pontos. Pontos esses que nesse momento faltam ao São Paulo e sobram ao Palmeiras. É importante lembrar que mesmo ganhando todos os títulos nacionais que disputou pelo seu ex-clube, não houve um ano em que a permanência do comandante não fosse contestada após as referidas desclassificações nos mata-matas. No São Paulo, Muricy era muito criticado por “não saber” jogar torneios eliminatórios.
Acho curioso esse fascínio que os brasileiros ainda têm pelos confrontos diretos, essa idéia de que quem ganha esse tipo de campeonato é mais viril, mais potente. Torcedores, dirigentes e mesmo alguns cronistas gostam dos tais times “copeiros”, expressão que eu acho um tanto quanto ridícula. Quantas vezes não ouvi a própria torcida do São Paulo apupar seus jogadores após eliminações em mata-matas chamando-os de “pipoqueiros”, “amarelões”, coisas do gênero. Essa relação subliminar entre vencedores de torneios eliminatórios com masculinidade, virilidade, potência sexual é um traço revelador de um pensamento machista, um tanto quanto descolado para o futebol atual de chuteiras tão coloridas e comemorações com tantos beijos.
Jogadores atualmente costumam trocar de time como trocam de roupa, já estamos acostumados. Dormem beijando o escudo que no dia seguinte terão como adversários. Técnicos nunca tiveram essa relação de identificação tão íntima, esse vínculo de sua imagem ligado tão diretamente com os clubes para os quais trabalham. Há aqueles que vão a campo sem qualquer vestígio do distintivo do time em seus ternos mal cortados. Mas há algumas exceções. Da mesma maneira que é difícil imaginar Joel Santana com algum agasalho que não seja o do Flamengo, parece um pouco estranho Muricy com o uniforme do Palmeiras. Mas isso é evidentemente uma impressão que incomodará mais os torcedores tricolores. Daqui a dois meses Muricy e Palmeiras já estarão tão misturados que parecerá que o treinador nasceu na própria Academia.
Enfim, na semana que vem o técnico tricampeão estreará no comando de seu novo clube. Luxemburgo já reassumiu o Santos. Tenho certeza que alguma coisa soará deslocada quando se enfrentarem São Paulo e Palmeiras, assim como Palmeiras e Santos. Mas como nessa vida a tudo a gente se acostuma, certamente esse estranhamento não passará de uma ilusão de ótica.
BOLEIROS – MURITRY Por Equipe Nando Reis
Artigo de 25 de junho de 2009 da coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de S.Paulo.
Estranho mundo esse do futebol. Um técnico legitimamente tricampeão é demitido de seu cargo, após seu time naufragar pela quarta vez seguida no torneio continental que é tido como prioridade pela diretoria do clube que persegue obstinadamente esse outro título, que passou a ser também a obsessão de sua torcida. A torcida insatisfeita com o novo fracasso grita com entusiasmo e paixão o nome do técnico demitido nas arquibancadas, do mesmo lugar onde ela, torcida, assistiu seu time do coração perder a condição de permanecer no torneio que também era o objetivo principal de seus jogadores.
Os jogadores não conseguem coordenar o discurso proferido por todos do grupo, que reafirma a intenção de priorizar o tal torneio. Parecem estar afinados com a torcida e a diretoria nesse quesito, mas não conseguem coordenar três passes seguidos dentro do campo, revelando que essa coordenação verbal não tem correspondência na parte motora. A própria diretoria não conseguiu emitir ordens coerentes durante a jornada que buscava o épico primeiro posto: distraída por um outro campeonato que ela mesma conjugava no diminutivo, acabou fazendo escolhas erradas que dificultaram a trajetória e acabaram criando dificuldades maiores para aquilo que já seria uma tarefa e tanto.
Derrotas sempre precisam de culpados, e nem sempre os responsáveis encontram lógica para dar uma explicação. Quem estará certo? Difícil saber o que se passa dentro dos muros que cercam o ambiente onde trabalha e convive um grupo de profissionais, especialmente desse ramo esportivo – o futebol. Dezenas de seres humanos vivem seu dia a dia lidando com suscetibilidades de todas as naturezas, sejam psicológicas ou econômicas, com variáveis insondáveis que podem ou não determinar o êxito e a harmonia de um projeto coletivo. Sei por experiência própria, pois vivi 20 anos num regime de trabalho também coletivo, no meu caso 20 anos numa banda de rock’n’roll. Tantas vezes ouvi explicações, teorias, análises, críticas que falavam do resultado de nosso trabalho – músicas, discos e shows – e em geral o que ouvia era completamente disparatado, descolado daquilo que acontecia da realidade de sua construção, das próprias motivações, ou das raízes inspiradoras. Mas a realidade não é tão objetiva como pretende a visão de quem opina de fora. Realidade, nesse caso, não existe; é um apanhado caleidoscópico de visões, impressões, expressões divergentes. Não é sequer a mesma para aqueles que estão ali dentro. Tantas vezes vi que o que eu pensava não batia com aquilo que meus colegas de banda pensavam, tantas vezes vi também que nós nem sabíamos por que havíamos tomado certas decisões, tanto as corretas quanto as mais equivocadas. Há muito do acaso nas opções, nas soluções criadas.
Um jogo de futebol, como todo projeto de criação coletivo, é como uma conversa, uma troca. Troca de palavras, de passes, de olhares; troca de ofensas ou de gentilezas, também. E essa sucessão de passes, palavras e olhares criam uma ordem, uma lógica, uma forma particular, uma desenho próprio, uma linguagem única, às vezes só entendida por aqueles que participam dessa conversa. Os que estão de fora apenas ouvem os sons dessa música, talvez sem entender o significado enigmático das palavras inventadas.
Mas quando é possível perceber comunicação, é porque se estabeleceu uma harmonia. E as coisas fluem. Todo torcedor sabe quando seu time não está em harmonia. O futebol jogado em geral é pífio, raquítico, quase antipático. De cima das arquibancadas não se ouve o que é dito nos vestiários, mas será que não é lá de cima o melhor lugar para enxergar o caos escrito no gramado?



