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[BOLEIROS] O VELHO NAVIO – 21/05/2009 Por Equipe Nando Reis

21/05/2009

Artigo de 21 de maio de 2009 da coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de S.Paulo.

Estava para fazer essa visita desde que foi inaugurado, mas só ontem fui ao Museu do Futebol. Com menos tempo do que o necessário, pois minha visita aconteceu de surpresa, não imaginava que iria gastar aquela hora perdida passeando pelas costelas do velho estádio. E surpresa maior encontrei lá dentro. A começar pela exposição temporária que aborda o espírito de colecionador que tangencia o culto ao esporte. Uma mostra com dezenas de camisas de clubes de menor expressão (menor torcida, seria melhor dizer), uma de times de futebol de botão e aquela que mais me encantou: uma exposição de flâmulas. Sempre achei que a flâmula triangular é a peça mais elegante e charmosa para exibir a beleza do distintivo. E não estava enganado. Embora não tão grande em número, a amostragem é rica e diversa. A flâmula é o símbolo que une o futebol ao glamour dos tempos passados.

Mas o conteúdo permanente é deslumbrante. Não vou descrever aqui a quantidade de informação, de imagens, de fotografias que abriga o Museu. Seria impossível e inútil. Vou me ater a uma pequena seção, a que mais me tocou. No segundo pavimento há um cotovelo de concreto que fica sob o vão das arquibancadas, está montada uma instalação que homenageia os torcedores. É um vídeo de 7 minutos exibido em múltiplos telões, com imagens simultâneas e contrapostas, onde aparecem cenas de diversas torcidas, agrupadas por estados, por rivalidade. Num primeiro instante, você é levado a crer que há apenas uma imagem sendo exibida em diferentes planos, mas na verdade elas dialogam e se confrontam. E os flagrantes da massa anônima e uniformizada revelam toda a eletricidade gerada numa arquibancada: a tensão e a descontração, a apreensão e a comemoração, o grito, o pulo, o gesto, o urro.

São cenas tocantes e emocionantes, reveladoras do que se passa lá no estádio, entre aqueles que se encontram para vibrar por um mesmo time.

Desde ovações e cânticos, batucadas e charangas, gritos de guerra, danças, chuva serpentina de papel descendo da arquibancada ao campo – é tudo muito lindo, catártico. Confesso que fui às lágrimas. Não há nada que se compare a essa força que emana dos anéis de cimento quando uma multidão se agita em busca de alegria. O que é o estrondo de uma torcida gritando um gol? Que som é esse? Que música pode ser melhor entendida do que essa que não tem palavras? Fica absolutamente claro porque o futebol é apaixonante e é fundamental. Quem nunca berrou um grito de gol em plena arquibancada ainda não viveu.

Percorri as outras seções – inúmeras, belíssimas – ainda inflamado por aquela cenas. De certa maneira, passei os olhos nas infinitas imagens e fotografias um pouco desatento, quase desligado. Não tenho dúvidas de que tenho que voltar lá para poder absorver a enorme quantidade de informação. Mas enquanto caminhava ainda atordoado pelo eco dos gritos ouvidos, fui brindado com uma incrível visão: há um terraço que nos permite ver a maravilhosa paisagem do interior do estádio. Meu deus, que espetáculo divino! O verde do gramado acentuado pelo contraste do cinza do céu cheio de nuvens; as arquibancadas vazias com suas cadeiras traçando um anel ao redor da original topografia; as torres de iluminação; o tobogã. Na encosta do velho bairro do Pacaembu, um navio ancorou suas cabines refeitas em degraus, ferro e clorofila. Mesmo vazio de qualquer gente, com nenhuma torcida, aquele lugar é palco para a eterno desfile das almas tremulantes que lá, um dia, deixaram a dádiva da gota duma lágrima, dum sorriso, dum suspiro. Que me perdoem os corintianos, mas o Pacaembu não tem dono. É de todos, é do sonho do futebol.

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