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[BOLEIROS] CASAGRANDE – 11/06/09 Por Equipe Nando Reis
Artigo de 11 de junho de 2009 da coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de S.Paulo.
Foi na quarta-feira – quase quinta, pois já era madrugada – que vi meu amigo Casagrande numa reprise de algum programa esportivo de TV. Fazia um bom tempo que eu não ouvia sua voz e, principalmente, que não ouvia seu raciocínio rápido e arguto, perspicaz e único. Fiquei feliz demais. Ali, diante da tela de plasma líquido, diluída em cores cítricas, exausto depois de 8 horas de ensaio, deitado na cama feita, pude me deliciar com a surpresa da boa novidade. Casão na TV, no lugar certo, tratando do assunto certo, de forma certeira – sem a falácia das certezas, mas nem por isso hesitante ou escapando de polêmicas crivadas de dúvidas. O grande jogador estofava novamente o grande comentarista. Bravo!
Conheci Casagrande em 1982, 83, ou perto disso. Estávamos nós, os Titãs, no SESC Pompéia durante a tarde ensaiando para alguma apresentação que ali faríamos. Não me lembro se era um show ou gravação de um programa de televisão. Alto, magro, cabelos compridos e cacheados cobertos por um chapéu de feltro, bolsa a tiracolo, se aproximou da gente de modo simpático e natural. Já era o bom jogador do Corinthians que despontava, mas não sei se já alcançara a fama que a Democracia e seus títulos outorgariam futuramente, lapidando seu nome na eternidade. Reparei na chinfra do rapaz e fui muito com a sua cara. Pela primeira vez na vida falava com um jogador de futebol – até então jogadores faziam parte de uma categoria de seres inatingíveis.
Me lembro do quanto eu vibrei quando ele foi jogar no São Paulo, por empréstimo. Estava meio desacreditado no Corinthians e acabou se reerguendo no tricolor. Por não ter o preço de seu passe estipulado, voltou para o alvinegro e de lá partiu para a Itália. Foi quando ele retornou da Europa que nos conhecemos de fato. Eu, ele e Marcelo Fromer tínhamos aquela fissura de juntar esses universos distintos da música e do futebol, distantes apenas por falta de apresentação. Tendo profissões mais do que semelhantes, nosso interesse sempre foi o de desvendar os segredos que faziam a outra metade do campo parecer mais cintilante. Todo jogador sempre quis saber como é estar num palco. Todo músico sempre quis saber o barato de fazer um gol.
Há muito mais em comum entre essas duas profissões do que as pessoas sequer imaginam. No fundo, no fundo, ser adorado por dezenas de centenas, ser ovacionado por milhares de pessoas tem um efeito tão inebriante quanto aterrador. O aplauso traz apenas alívio imediato para uma dor que não tem cura. A grande plateia só ilumina mais intensamente a solidão inescapável da existência em cada um de nós. Alguns passam ilesos por isso. Outros, nem tanto.
Entre as coisas que me fazem admirar esse grande homem que é Walter Casagrande Júnior estão a capacidade de conviver com suas imperfeições, a coragem de enfrentá-las e a perseverança necessária para reconstruir os caminhos que foram destruídos. Posso dizer que eu sei o quanto é duro, o quanto parece difícil retomar a vida depois que o seu curso tantas vezes fugiu do controle. Falo por mim e por mais ninguém, porque sobre essas coisas não existem regras, receitas, nem verdades, apenas a experiência de cada um. Estou lançando um disco novo, DRÊS, e nele há uma canção que escrevi para minha filha, Sophia, cujos versos dizem: “Sofria vendo eu me destruir sem conseguir me parar/ Sofri vendo você pedir as coisas que eu não pude dar”. Tempos ruins que ficaram pra trás. Hoje, tudo que ela quer é me ver bem, seja em casa seja no palco. Eu penso o mesmo: tudo o que eu quero é ver o Casa sempre bem assim, na vida, na TV.
Você fez falta, camarada!



