OLHO NA BOLA Por Equipe Nando Reis

08/10/2009

Artigo de 08 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.

Segunda-feira agora fui ao oftalmologista para fazer meus rotineiros e anuais exames de vista. Um alto míope como eu tem de vigiar com atenção os descaminhos das mazelas que afligem os olhos. Desde pequeno sofro com a miopia, com o astigmatismo, e agora, aos 46, surge a novidade da presbiopia. Para a leitura matinal dos jornais os meus óculos já não resolvem mais a questão do foco e da nitidez. É uma verdadeira dança as manobras que faço com a armação redonda que se ampara no nariz. Acostumado com lentes de contato, passei a semana sem elas para que o exame pudesse ser acurado, como recomenda meu estimado Dr. Jayme Roizemblat. Sob o efeito do anestésico que entorpece a musculatura que comanda a retina e, assim, dilata a pupila, ele revisitou a engrenagem que movimenta meus olhos ao se abrirem para o espetáculo da visão.

Há um certo e específico exame que me deixa extremamente aflito. Graças às modernidades de hoje, pude ver as ranhuras castanhas de minha íris ampliada numa tela de plasma. Ao ouvir meu suspiro de aflição, o excelentíssimo doutor redarguiu com entusiasmo: “Aflição do quê? Não existe nada mais lindo do que isso!”

Pois foi justamente esse comentário revelador do remanescente fascínio que o doutor ainda sente por seu antiquíssimo objeto de estudo, que chamou minha atenção. Aí reside o amor ao ofício, banhado pelas águas correntes da eterna paixão. Para o meu oftalmologista não há nada mais belo do que a íris, a retina, a pupila, todo olho, enfim.

Certa vez, admirado, ouvi de um dentista uma explanação filosófica sobre a existência do ser humano no mundo por meio de uma estupenda analogia que ele fez com a relação entre o dente e a gengiva.

Brilhante! Fiz esse prólogo aparentemente desconexo para louvar aqui o espetáculo que foi a atuação de Diego Souza no clássico paulista no fim de semana entre Palmeiras e Santos.

Assisti ao jogo de cabo a rabo, interessadíssimo. E é sempre delicioso assistir a um jogo sem o fervor da torcida pessoal, pois, por maior que seja o seu desejo por um placar, não há chance de gritar um gol com legitimidade se este não é feito pelo seu time de coração. Enfim, assisti a virada do Palmeiras de camarote, e posso dizer que ela nasceu nos pés de Diego Souza.

Li alguns comentaristas dizendo que o jogador esteve sumido até o momento do primeiro gol. Discordo. Já nos minutos iniciais da partida ele desferiu três poderosos tiros contra a meta alvinegra. E não foram tiros quaisquer. Diego chuta bem, com malícia e força. O primeiro tempo foi parelho, assim como ia sendo o jogo até o Santos abrir o placar.

Chances o Peixe teve para ampliar. Mesmo depois de levar o primeiro gol, quase empatou. Se não fosse pela categoria individual de Diego Souza, a coisa certamente não teria virado a favor do Palmeiras.

Nos três gols sua participação foi decisiva. Três lances distintos, três movimentos precisos, vigorosos e incisivos. A cabeçada letal, no primeiro. A ajeitada perfeita, no segundo. E o totozinho que encobriu o zagueiro, no terceiro. Tudo isso aliado e ajudado pela categoria de seus parceiros Cleiton Xavier, Vagner Love e Robert. Afinal, ninguém joga sozinho. A força do ataque do Palmeiras construiu, em poucos minutos, um placar que parecia inalcançável, distante e perdido. Mas volto a exaltar a grandeza do futebol de Diego. E escrevo isso simplesmente para salientar que, assim como meu oculista, Diego Souza é um apaixonado pelo próprio ofício – um sujeito que joga o que ele joga só o faz por amor à bola.

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1 Comentário

Comentários

  1. Hellen Rocha

    8 de outubro de 2009

    O Ruivo como sempre arrasando nos seus artigos. Quando a gente ama o que faz dá nisso né? Um ótimo cantor, compositor, escritor e tudo mais.

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