GENERALIDADES UBATUBANAS Por Equipe Nando Reis
Artigo de 15 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.
Vim passar uns dias em Ubatuba na companhia de minha filha, que tem uma semana de recesso escolar. Como chove! Na verdade nem é tanta água que cai; a garoa é a forma econômica que a chuva encontra para se perpetuar como angústia e dúvida. Mas há nessa brancura infinita do céu encapado a graça das cores ressaltadas. O verde do gramado fica tão mais verde quando encharcado, e todos os outros tons de verde parecem encontrar sua identidade na diversidade dessa cor única que tem por semelhança a qualidade vegetal de ser clorofila. Nesse silêncio rompido de vez em quando por um ou outro carro que risca no alto o asfalto da estrada, berram também histéricas e ocasionalmente as maritacas revoando na algazarra de seu bando. Volta a chover e o som da água a todos os outros cessa. E ponto.
Longe da vida urbana, deixei também na minha casa o conforto dos inúmeros e inúteis canais da TV a cabo. Que nem sempre são tão inúteis assim, principalmente quando oferecem o muito de tudo que é jogo de futebol. Afinal, justamente a semana de meu retiro está coalhada de jogos importantes – e muito, muito interessantes – que a TV aberta daqui não brindará pela retransmissão da grade de Resende. Só vai ter Brasil e olhe lá! Desde sábado intercalam-se jogos do Brasileiro, das Eliminatórias e do Sub-20. Beleza.
Claro que o computador é uma forma de acesso a informação imediata, mas sem conexão direta fico na dependência de acessar de tempos em tempos o contato via discagem telefônica. Uma deliciosa precariedade. Sendo assim, sobram as notícias fornecidas pelos telejornais, ou a publicação matinal dos jornais impressos que chegam pelo café da manhã. O curioso é que eu não sei se a ausência da notícia online aumenta ou não minha ansiedade. Deixa isso pra lá!
Longe daqui a guerra de Montevidéu haverá de deixar cicatrizes e feridos. Acho que os 10 minutos finais do jogo entre Argentina e Peru foram os mais dramáticos (ou seria melhor dizer, épicos? ou patéticos?) que já assisti. Mais incrível do que o gol de Palermo nos acréscimos, foi a saída de jogo, quando o jogador do Peru bateu na bola no meio do círculo central e a mandou no travessão! O Peru quase empatou o jogo numa jogada que nem Pelé conseguiu traduzir em gol…
É estranho o que caracteriza uma rivalidade ferrenha como a que nós temos com nossos vizinhos: assisti a esse jogo torcendo racionalmente para que a Argentina não ficasse de fora do Mundial, mas emocionalmente desejando o desastre da desclassificação. Que horror!
Hoje, boa parte da vida futebolística do mundo para o ano que vem já estará resolvida. Para uns poucos ainda restará a chance da repescagem. Para outros, o sonho entrará em recesso por mais 4 anos. Nós, brasileiros, classificadíssimos, ficaremos um bom tempo sem saber o que é lutar por uma vaga para um Mundial – afinal, estamos também garantidos para 2014, pois seremos os anfitriões.
Daqui da rede onde estou sentado vejo uma bola parada sobre o campo pisoteado. Ontem mesmo jogávamos futebol no gramado ao lado, num 3 contra 3 com golzinho caixote demarcado por estacas de bambu. Muito longe da África, muito antes de 2014, sob a garoa fina litorânea, sobre a verde clorofila do tapete esburacado, durante uma breve hora ensopada, a Copa do Mundo foi disputada aqui em Ubatuba para uma platéia de maritacas ensandecidas, sabiás desconfiados e caramujos adomercidos. Foi lindo.




dora reis
15 de outubro de 2009
Muito bonito seu texto, sempte fico de boca aberta com tantas frases bonitas, como vc elebora fácil um texto,exelente!
Vc é professor de tudo e as vezes filósofa de um jeito que a gente vinda voando para bem longe, ( bom seria para perto de vc), por isso eu tenho como meu grande ídolo.
Parabéns professor!
Hellen Rocha
15 de outubro de 2009
Quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor…
Que vontade de descer pra Ubatuba só praver se esbarro como Ruivo…
Débora Mário
15 de outubro de 2009
É poético. sensível, infinito…A maneira de ver a realidade de uma maneira tão sublime!Até o que parece triste você faz poesia. É você, mais uma vez, fazendo de algo tão simples uma coisa tão especial. Não tem jeito de não te amar!!!
Ana Paula
18 de outubro de 2009
Salve, Nando
Lendo esses belíssimos textos que você redige, sinto que tu és perfeito, de uma sensibilidade incrível. Tudo que você compõe, escreve me toca lá no fundo.
… Ah,queria muito ser uma dessas maritacas, só para poder ver o meu ruivo preferido jogando (a copa de 2014 antecipada). Estou te esperando, aqui em Maceió, numa ansiedade tremenda.
Amélia Machado
20 de outubro de 2009
Belo texto, mas não posso deixar de dizer que minha felicidade de ver meu galo ganhar do São Paulo no Morumbi… não tem preço! rsrsrs
Rosangela Belo
20 de outubro de 2009
Cada vez me encanto mais com vc , a simplicidade como vc descreve os dias de folga, que mais parece uma rotina louca que so se abriu uma aspas.