DOIS ANOS DEPOIS Por Equipe Nando Reis

29/10/2009

Artigo de 29 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.

Há dois anos uma revelação indesejada descaiu sobre mim com o impacto de uma bomba, com a força invisível de um furacão. Cada um de nós tem seu pequeno baú de segredos, de pensamentos inadequados, de desejos inconfessáveis que respiram o ar rarefeito do sótão da mente incongruente, que só enxergam na luz com extrema dificuldade, pois foram criados na sombra, no canto protegido e esquivo que busca o retiro da escuridão. E não há nada de errado em não querer ser visto por todos o tempo inteiro. Buscar o refresco do recreio do silêncio das vozes alheias, o sossego do afastamento do convívio com os outros, mesmo que seja pelo o átimo de um segundo, pelo instante breve de poucos minutos, pelo degelo desértico da espera dos meses, pelo monólito dos anos seguidos e infinitos, por uma vida inteira… Faz parte. O que há de errado em querermos mudar de lugar, mesmo sem garantias de que venhamos a conseguir? Uma revelação não traz consigo necessariamente a resposta do seu entendimento; não há bula se não há remédio, não há chave onde não há portão.

Curioso é lembrar que justamente há dois anos o Campeonato Brasileiro estava nessa mesma fase, próximo ao desfecho. Lembro bem de um jogo de importância capital que não pude assistir no campo. Prostrado na cama, as imagens do estádio lotado provocaram em mim um sentimento de medo e desolação.

Quando você se sente mal fisicamente é estranho olhar para uma multidão. Ela exacerba o confinamento desse momento excludente, e a relação com o coletivo soa como enfática expulsão. Ao ver todos juntos você se sente como o “menos um”.

Futebol sempre foi para mim uma espécie de aquário onde nadam os peixinhos uniformizados da saúde (que é o esporte) e da euforia (que é alegria coletiva). Quando é algo dramático, explode assim, feito vulcão. Dentro do estádio, tudo que é vivo fica estático quando a memória registra nos livros coloridos dos arquivos o momento mais bonito que é a feitura de um gol. Claro que nem todo gol é bonito, não é lindo feito pintura. Tem gol feio que é querido, mas um gol contra é sempre doloroso, horroroso, indesejável, abominável.
Daniel Piza escreveu aqui há alguns dias que comparar futebol com amor é ridículo. Não acho. Amar é se permitir a ser ridículo, e a gente fica melhor quando não se amarra com tanta contenção. Quanto mais imperfeito, mais humano, mais belo.

Estava ontem vendo futebol pela TV com meu filho Sebastião, de 14 anos. De uns tempos pra cá o futebol entrou em sua vida de um modo muito intenso, poderoso, alucinante. Ocupa sua mente quase o tempo todo. O grande assunto é o São Paulo, os jogos dos adversários, os treinos, as notícias, os programas esportivos, o Campeonato… O futebol, enfim! Falávamos sobre o quão decisivo seria o jogo contra o Internacional e ele segredou com comovente inocência: “Se o São Paulo perder acho que eu vou chorar”. Quando ouvi essa frase fiquei pasmo.

Não sabia como reagir, como responder, o que falar. Me senti meio ridículo de dizer que eu também sentiria vontade de chorar – como já sentira em tantas outras ocasiões -, mas achei que seria ainda mais ridículo dizer que ele não deveria se importar tanto com isso. É bom poder chorar nas derrotas, embora o mundo todo o tempo inteiro esteja nos dizendo que o importante é ser feliz. Ser feliz não é apenas sorrir. Espero hoje estar exultante. Mas dois anos depois, não vou dizer que não tenha sido bom aprender a ruir.

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15 Comentários

Comentários

  1. Juliana

    29 de outubro de 2009

    São Paulina de alma,coração e amor..esse mesmo amor ridículo q gosto de sentir! Não vi o jogo, mas ouvi. No intervalo da aula da faculdade, na volta do embalo do trem e torcia por dentro como se tivesse lá no estádio. O campeãããoo vooolltooouuu..ah nesse momento sim, senti vontade de chorar!

    Bjos tricolores pra vc e pro Sebastião!

  2. Leo Celani

    29 de outubro de 2009

    Caro Nando Tricolor Reis, teus artigos invariavelmente causam emoção em meu coração tricolor. Esse, em especial, fez-me recordar de fatos guardados em minha mente, o qual tive que assoprar a poeira que o cobria. Lembrei-me da primeira vez que me vi chorando pelo São Paulo. Não se tratou de um choro de tristeza, mas de alegria. Era o ano 2000, o SP havia feito uma primeira fase na Copa São Paulo magnífica, goleamos a todos, na fase seguinte, vitória novamente… Lembro-me como se fosse hoje, quartas-de-final, todos em casa, família estava reunida, era já hora do almoço e eu não saia da frente da TV, o São Paulo jogava contra o então Etti Jundiaí, por uma vaga nas semifinais. Jogo duro, difícil, mas vencemos no final, 1 x 0. Vitória apertada. Chorei. Chorei com a alegria de nossos jogadores ao comemorar a tão sofrida vitória. Chorei e naquele choro comprovei realmente que batia em mim um coração tricolor. Acho que foi a partir dali que influenciei de vez os meus três irmãos, somos 4 sãopaulinos, filho de um corinthiano, em uma família predominantemente corinthiana. Como costumo dizer, somos a evolução da espécie. Obrigado, Nando, por reavivar essas memórias. O primeiro de muitos choros que tive e que, espero, repetirei, uma vez mais, lá pelo fim do mês de dezembro!

  3. Eduardo Dabés

    29 de outubro de 2009

    Cara, admiro muito todos os teus trabalhos. Suas músicas, composições e textos em geral, expressam puro sentimento, ou seja, emoção! Sinto como se fosse a mais fidedigna expressão de um coração Tricolor. A impressão que tenho, é que você canta, toca e escreve como se estivesse assistindo a uma final de campeonato no Morumbi, onde, claro, um dos postulantes ao título seria o nosso querido Tricolor, sempre com a mesma vibração e emoção.
    Com certeza esse é um dos fatores que nos proporciona prazer ao desfrutar de algo feito por você, como é o caso de mais esse texto maravilhoso.
    Muitos não entendem a paixão pelo esporte, e especialmente, por um clube de futebol, como é o nosso caso em relação ao São Paulo F.C. Porém, a paixão não é para ser compreendida, e sim, sentida! E só quem sente essa paixão, sabe o quanto é gratificante, e o quanto vale à pena.
    Um abraço, e continue sempre assim, nos presenteando com ótimos textos, melodias e composições repletos de emoção!

  4. Olga

    29 de outubro de 2009

    Leio sempre seus artigos, gosto da maneira como escreve. Mas, hoje senti vontade de compartilhar algumas palavras. O futebol entrou na minha vida pelo útero, sou mãe de três meninos de 23, 16, 12, meu pai é Botafogo,me considerava botafoguense por ter nascido no bairro de Botafogo e também, por solidariedade paterna.Porém, quando meu filho do meio, tinha a idade do seu, o futebol entrou em sua vidinha de maneira avassaladora, e já compartilhei com ele alegrias e tristezas. Os três são flamenguistas, mas no Vitor, a paixão pelo rubro-negro é desmedida. Ontem, eu também sofri com ele a derrota do Mengão! A coisa mais linda de ver é o brilho nos seus olhos quando o Mengo ganha. Compartilho com meus filhos a eterna alegria de ser rubro-negro, quem já foi ao Maracanã e sentiu de perto a energia que emana da torcida rubro-negra, sabe que paixão é essa ! Não tem explicação ! Não precisa de explicação!

  5. Cleo Soares

    30 de outubro de 2009

    Confesso que tbm quiz chorar ñ somente pela possibilidade de uma infernal derrota do nosso tricolor, mas por imaginar tamanha tristesa isso causaria ao nosso inocente Sebastião. è muito intenso umtexto que nos leva a viver a emoção contida numa cena.
    Cada Vez mais impressionante, como pode uma pessoa escrever tã bem…
    Bjs

  6. Ana Paula

    31 de outubro de 2009

    Três dias atras tudo era diferente, três dias pra frente nada vai ficar igual. Pois vou te ver quando ficar de noite.
    Te aguardo anciosamente.

  7. Priscila Cezar

    1 de novembro de 2009

    Chora mesmo… emoções, assim como os amores e suas sensações são pra serem vividas… alguns as preferem expor em músicas e poesias… talvez o pai do Sebastião, são paulino, como o próprio Sebastião e eu, seja um destes casos. Torcendo pro SP, com os anseios pelas vitórias, e as grandes comemorações por cada gol e cada ponto no campeonato, fica mais fácil mesmo admitir: o mundo é bom Sebastião!

  8. aline

    1 de novembro de 2009

    É nula minha relação com o futebol, embora creia que ainda sentarei com meu filho num domingo fresco, para chorar alguma derrota futebolistica (pressuposição: não tenho filhos). Nesse instante, longe de ser nula será a experiência de um possivel choro compartilhado. Chego a pensar que o que nos falta são lagrimas para molhar nossos dias as vezes tão secos…
    Beijos

  9. Daniela

    3 de novembro de 2009

    Eu concordo com vc e acho que o futebol pode ser comparado com tudo. As metáforas futebolísticas são sempre as mais completas e simples. Qto ao amor, pode ser bem misturado ao futebol, sim! Só acho que se existe algo acima do ridículo, este é o amor! É como se o ridículo não o atingisse, na verdade, nem o alcançasse.

    Amo seu trabalho, seus textos, seu olhar! Quem vai dizer que isso é ridículo!!??
    Beijos

  10. Leonardo Daniel

    3 de novembro de 2009

    Nossa Nando quero reler mil vezes até quem sabe as palavras guardadas em teu coração possam voar para o meu, seu fã, meu afã…
    Gostaria de voltar a torcer, mas não sei qual é meu time! Quando criança era o Inter, mas não sei, me afastei… O que fazer agora? Gosto do Ronaldo, do São Paulo, do Grêmio, do Goiás, estado onde moro, enfim gosto de um montão de times, quem sabe quando tiver filhos, eles me ensinem a voltar a torcer, vai ser o maior barato.
    Você eleva, Nando, o futebol a uma experiência intrínseca, metafísica.
    Adorei quando disse que euforia é uma alegria coletiva, será que um dia os psiquiatras vão entender isso?
    Sobre a escuridão, ela serve para lavarmos o rosto…

  11. Leonardo Daniel

    3 de novembro de 2009

    vem pra Goiânia
    que eu te dou um presente

  12. Tamires

    3 de novembro de 2009

    Nando, cade o post de Maceió? Aguardo ansiosamente pra saber o que você achou do show!

  13. Melissa

    4 de novembro de 2009

    MARAVILHOSO…. Esse é o resumo de todos os seus artigos, sinto a mesma coisa que o Sebastião, mais acho que sofro muito mais que ele, sou torcedora FANÁTICA PONTEPRETANA. A Ponte sempre foi e sempre será o meu time do Coração, e é muito engraçado, como uma pessoa pode torcer para um time que nunca ganhou se quer um Campeonato Estadual, não temos uma sala de Troféu em nosso estádio…. Isso é amor!
    Sou mãe da Bruna que também é Ponte claro, ela só tem 5 anos e defende o time assim como eu, somos uma família Pontepretana Pai, Mãe e Filha, não perdemos um jogo no Majestoso….. Há, e vibramos muito com todas as derrotas do nosso principal rival Guarani.
    O melhor de tudo é saber como é saudável torcer a favor e contra com a mesma intensidade. Adoro isso.
    Um super beijo meu e da Bruna.

  14. Júlia Leite

    4 de novembro de 2009

    isso…cadê o post da Barra de São Miguel????Foi Maravilhoso!!!
    http://www.youtube.com/watch?v=QIMhF4Yf6Zs

  15. Telma Helena

    5 de novembro de 2009

    “Amar é se permitir a ser ridículo, e a gente fica melhor quando não se amarra com tanta contenção. Quanto mais imperfeito, mais humano, mais belo.”
    Sinto-me ridiculamente humana.
    Beijos

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