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	<title>Nando Reis &#187; Boleiros</title>
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		<title>FLAMBOYANTS EM FOGO</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Nov 2009 17:05:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Nando Reis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Artigo de 19 de novembro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.
Ontem, subindo a João Moura como faço todos os dias, fui tomado de assalto pela explosão de flamboyants que ali se enfileiram com discrição gentil. As lindas flores vermelhas incendiavam a copa das árvores que pendiam seus [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Artigo de 19 de novembro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.</strong></p>
<p>Ontem, subindo a João Moura como faço todos os dias, fui tomado de assalto pela explosão de flamboyants que ali se enfileiram com discrição gentil. As lindas flores vermelhas incendiavam a copa das árvores que pendiam seus galhos retorcidos até que eles quase tocassem o chão. Com o sol fervendo e o céu estalando em azul intenso, o choque das cores provocava uma espécie de impacto, desses que atordoam a vista da gente acostumado a não reparar em nada. E, até alcançar o fim do sobe-e-desce das ladeiras íngremes, percebi que o espetáculo se estendia para outras espécies vegetais que faziam companhia aos flamboyants no festival de luzes e cores destemperadas: quaresmeiras, jasmins-cravos, jacarandás-mimoso tardios e muitas outras plantas cujo nome desconheço enchiam de graça o espaço definido entre o meio-fio e o alto dos postes.</p>
<p>    Ainda estamos na primavera, portanto seria natural que as flores espocassem com violência o flash de sua criação policromática. Mas, como o clima anda variando de um jeito perigoso nesses últimos tempos, arrisco a dizer que as chuvas fortes da madrugada que encontraram o calor tórrido desses dias ensolarados, devem ter contribuído para esse exagero das pétalas na plenitude exuberante de seu esplendor vívido.<br />
   Coisa linda de se ver.</p>
<p>   Contrastes assim, choques extremados entre naturezas distintas &#8211; calor &#038; frio, noite &#038; dia, sombra &#038; luz – produzem efeitos retumbantes. É sempre próximo ao desfecho do fim do ano que a gente tende a ficar mais radical. Talvez porque a paciência vá se esgotando ou, pelo contrário, a contenção necessária para cuidar das tarefas cotidianas que temos de empregar com parcimônia ao longo do ano, vá agora se distendendo. Seja pela proximidade das festividades, da bestialidade das farras, da felicidade feita de alegria das férias bem-vindas. E o resultado é um misto de euforia com desespero.</p>
<p>    Tenho sempre medo do que nos reserva o fim do ano. Nada a ver com essas teorias catastrofistas que alardeiam o final dos tempos, baboseiras que inventam que o crepúsculo da civilização se dará em 2012 &#8211; não creio ou temo nada disso. Tenho medo de gente comum enlouquecida pelo calor zanzando em plena calçada, tenho medo do trânsito ensandecido que em São Paulo sufoca e assalta. Quando chega dezembro minha vontade é de não sair de casa.</p>
<p>    E, se eu pudesse, ficaria vendo todo o tempo muitos filmes e muito futebol. Sim, por que o futebol tá pegando fogo. O fim de semana promete mais emoção dentro das quatro linhas, mais reviravolta nas extremidades da tabela, mais exasperação aos que sobem ou fogem dos dois G-4s. Vai fazer muito calor nesse feriado. Sexta-feira já é dia de descanso, já começa a preparação para ver o que vai nos oferecer a antepenúltima rodada. Claro que tem uma turma ali no miolo da tabela que está louca para o ano acabar, pra redefinir todo o planejamento, pra poder começar a tricotar o futuro dos novos sonhos, pra virar a página velha e amarrotada. Mas mesmo assim quer tirar uma ondinha torcendo contra.</p>
<p>    Ontem, subindo a João Moura, quando me deparei com o fogo sólido das flores vermelhas dos flamboyants, quase me ceguei olhando para o branco do sol se desfazendo em plena Via Láctea; dali procurei o preto absoluto do asfalto derretido para esfriar a brasa das retinas sonsas. </p>
<p>    O céu estava azul, mas tão azul, um azul profundo, talvez oceânico e não celeste. O verde continuava insistente, imperial e impenetrável, verde invencível e imponente. Nesse momento achei que a natureza fazia um desfile lúdico vestindo com as cores dos clubes seus elementos naturais. E pensei que todo mundo merece mesmo chance de sonhar. E ser feliz.</p>
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		<title>AURORA INSONE</title>
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		<pubDate>Thu, 12 Nov 2009 16:04:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Nando Reis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Boleiros]]></category>

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		<description><![CDATA[Artigo de 12 de novembro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.
Tenho cá comigo que o pior momento para as divagações angustiadas que pipocam em forma de insônia é aquele quando a luz vai vencendo a escuridão, quando o sol começa a raiar, quando os primeiros pássaros se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Artigo de 12 de novembro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.</strong></p>
<p>Tenho cá comigo que o pior momento para as divagações angustiadas que pipocam em forma de insônia é aquele quando a luz vai vencendo a escuridão, quando o sol começa a raiar, quando os primeiros pássaros se fazem ouvir ao longe por seus pios refrescados de orvalho recente.</p>
<p>Dormir, quase que consigo a qualquer hora; é só encostar a cabeça no travesseiro que a respiração já ressoa mais profunda, e a fantasia que promove a invasão do sonho começa a desfilar no pátio volátil da consciência desmaiada. Mas se estou com alguma pendência dependurada no varal dos pensamentos, com algum grilo saltitando no saguão que mora dentro da testa, ou se há um aborrecimento atrapalhando a paz ocasional do espírito, é nessa hora da aurora que o maldito incômodo rouba o tempo precioso do descanso e a cabeça começa a mal pensar.  E assim, além do sono, se perde a razão. Tudo fica maior: esquilos ficam do tamanho de ursos, ursos cometem crimes atrozes como os piores humanos, e pequenos pecados viram crimes que, anunciados em cartazes espetaculares, nos condenam sem defesa ou julgamento &#8211; deitados de olhos abertos na cama, somos culpados!</p>
<p>Coisa ruim de ter que digerir durante uma noite de sono é derrota no futebol, ainda mais assim, em reta final de campeonato. Pior ainda quando você acha que foi garfado. Digo isso pensando em todos os palmeirenses, na noite terrível que tiveram de domingo pra segunda, depois do mau resultado contra o Fluminense. “Aquele gol do Obina… Ah! como aquele gol pôde ser anulado?” Sim, um gol mal anulado como aquele interfere &#8211; e muito! &#8211; no resultado da partida. E tem a agravante de ter sido anulado pelo mesmo árbitro que, entre muitos outros erros recentes, marcou um pênalti numa jogada em que o centroavante caiu quando entrava sozinho dentro da área – se não foi numa formiga, certamente ele tropeçou em sua própria sombra…</p>
<p>Essa questão da arbitragem no futebol é assunto que precisa urgentemente ser revisto em todos os aspectos: além da arbitragem existem problemas com os julgamentos. Se não bastasse a desastrada anulação do gol de Obina, os palmeirenses ainda foram brindados com a revelação de que a condenação de Vagner Love há duas semanas foi determinada pela cor de suas trancinhas. Segundo a diretoria alviverde um auditor presente no tribunal insinuou que, se as tranças do centroavante fossem rubro-negra, ele teria sua pena abrandada. Onde já se viu isso?</p>
<p>A qualidade das arbitragens anda tão baixa, que é difícil dizer se algum time tem sido mais prejudicado que outro. Todos têm queixas e é provável que todas as queixas tenham fundamento. E o problema fica maior sabendo que aquilo que os árbitros descrevem nas súmulas é julgado por profissionais que podem usar como agravante ou atenuante para seus pareceres, a cor da camisa, o peso de um distintivo ou a sua birra com uma agremiação que não lhe agrada.</p>
<p>Evidentemente bater num juiz não resolve nada. A última coisa que precisamos é de mais incentivo para a violência como solução para as divergências, sejam elas futebolísticas, político-partidárias, socioeconômicas ou meramente sentimentais. Mas se somos todos humanos e falíveis, não seria o caso de estender essa prerrogativa a todas as esferas dessa engrenagem? Um auditor não pode declarar isso impunemente.</p>
<p>Sei o quanto um gol mal anulado pode atrapalhar nosso sono, roubar o sonho da conquista de um campeonato. Para essas coisas não existe medida certa.</p>
<p>Tem gente que sofre por amor, tem gente que mata por nada, tem gente que morre por um gol, tem gente que chora só de ouvir o nome da pessoa amada. É assim.</p>
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		<title>A sagrada refeição</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Nov 2009 14:38:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Nando Reis</dc:creator>
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		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[refeição]]></category>

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		<description><![CDATA[Artigo de 5 de novembro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.

 Das qualidades que nunca tive e sempre admirei nos outros, uma das maiores é a calma das pessoas que comem devagar. Sou verdadeiramente intrigado com essa capacidade que têm alguns indivíduos de sentar à mesa e, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Artigo de 5 de novembro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.<br />
</strong></p>
<p> Das qualidades que nunca tive e sempre admirei nos outros, uma das maiores é a calma das pessoas que comem devagar. Sou verdadeiramente intrigado com essa capacidade que têm alguns indivíduos de sentar à mesa e, mesmo com fome, saborear a comida em cada movimento do maxilar. </p>
<p> Mastigar trinta e tantas vezes um bom pedaço de carne, como recomendam os que estudam o assunto; deixar o sabor penetrar nas papilas gustativas da língua em vez de empurrá-lo, como uma besta, goela abaixo. Sou daqueles que comem com pressa. Tenho de me vigiar para não engolir os alimentos e bater uma pratada numa velocidade selvagem. Como almoço muitas vezes sozinho, sem a dispersão de uma prosa, acabo comendo rapidamente, com o pensamento mirando a atividade lá da frente, fazendo da sagrada refeição uma tarefa mecânica.</p>
<p>  Sei de tudo que há de mal nesse procedimento. Atrapalha a digestão, compromete a respiração, despreza o momento sublime proporcionado pelo paladar, é quase um desrespeito, não só com a saúde, mas com a boa comida que vem à mesa. E o incrível é que tenho a maior adoração pela hora da refeição. Das coisas que mais sinto falta nessa vida de divorciado é justamente a companhia da família à mesa, especialmente a das crianças. Crianças? Nem todos mais. Dois de meus filhos já estão praticamente criados e quando vejo a janela aberta já os imagino batendo suas asas, alçando vôo. O mais velho esse ano se casa. Vai me dar a benção de uma neta, que já tem prometido o nome de santa: Luzia. Mas haverão sempre de ser bondosos os domingos.</p>
<p> Por isso é que gosto tanto de terça-feira – é o dia que meus filhos passam comigo. Invariavelmente, acabo juntando os quatro (o quinto, que é o mais novo, mora longe, em São Leopoldo). Coisa boa é conversa de filho, risada de filho, piada de filho, até mesmo briga de filho. Se há hora certa para aprender a se colocar numa roda, se defender numa rusga, é justamente no meio dos irmãos onde até as mais rudes asperezas se relativizam, pois não há nada mais saudável do que a fraternal competição. Como os pequenos mamíferos, é em família que se aprende a arrancar o seu bocado. Essa semana foi diferente, devido ao feriado trocamos nossa janta para quarta-feira. E quarta é dia de jogo. E como futebol é uma espécie de prato típico nacional, algo entre a pizza e a feijoada, todo mundo curte, mesmo que haja entre nós a fundamental fratura da dissidência, para que possamos praticar a tolerância. No meio de tantos tricolores, é sempre arejado o ponto de vista de minha querida filha santista.</p>
<p>  Então volto a dizer que admiro, quase que invejo, aqueles que sabem comer devagar. Aqueles indivíduos que, diante do prato, ruminam como a vaca que enfeita a paisagem do pasto. Às vezes queria ter nascido camelo, para poder apenas ter o prazer de saborear. </p>
<p> Certa vez, estava em Barcelona &#8211; antes de todas essas fobias que andam adoecendo a nossa civilização ávida por cuidar da saúde, esquecida de que a morte também é natural – e na mesa ao lado um casal catalão comia uma paella em meio de uma acalorada discussão. A linda moçoila que ardia o vermelho das bochechas cada vez que arguia, revezava uma bela tragada de tabaco com uma boa colherada de seu pão. Quando cheguei ao restaurante eles já estavam lá; quando pagamos a conta eles continuavam em ação, entre baforadas, garfadas e estridente berreiro.</p>
<p>  No domingo assisti a uma partida espetacular: Cruzeiro e Fluminense! Eu acreditava que os mineiros estavam vindo pra realizar o ditado. Mas foram comendo tão devagar que acabaram devorados pelo desespero do faminto tricolor.</p>
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		<title>DOIS ANOS DEPOIS</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Oct 2009 17:12:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Nando Reis</dc:creator>
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		<category><![CDATA[brasileirão]]></category>
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		<description><![CDATA[Artigo de 29 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.
    Há dois anos uma revelação indesejada descaiu sobre mim com o impacto de uma bomba, com a força invisível de um furacão. Cada um de nós tem seu pequeno baú de segredos, de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Artigo de 29 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.</strong></p>
<p>    Há dois anos uma revelação indesejada descaiu sobre mim com o impacto de uma bomba, com a força invisível de um furacão. Cada um de nós tem seu pequeno baú de segredos, de pensamentos inadequados, de desejos inconfessáveis que respiram o ar rarefeito do sótão da mente incongruente, que só enxergam na luz com extrema dificuldade, pois foram criados na sombra, no canto protegido e esquivo que busca o retiro da escuridão. E não há nada de errado em não querer ser visto por todos o tempo inteiro. Buscar o refresco do recreio do silêncio das vozes alheias, o sossego do afastamento do convívio com os outros, mesmo que seja pelo o átimo de um segundo, pelo instante breve de poucos minutos, pelo degelo desértico da espera dos meses, pelo monólito dos anos seguidos e infinitos, por uma vida inteira&#8230; Faz parte. O que há de errado em querermos mudar de lugar, mesmo sem garantias de que venhamos a conseguir? Uma revelação não traz consigo necessariamente a resposta do seu entendimento; não há bula se não há remédio, não há chave onde não há portão.</p>
<p>    Curioso é lembrar que justamente há dois anos o Campeonato Brasileiro estava nessa mesma fase, próximo ao desfecho. Lembro bem de um jogo de importância capital que não pude assistir no campo. Prostrado na cama, as imagens do estádio lotado provocaram em mim um sentimento de medo e desolação. </p>
<p>  Quando você se sente mal fisicamente é estranho olhar para uma multidão. Ela exacerba o confinamento desse momento excludente, e a relação com o coletivo soa como enfática expulsão. Ao ver todos juntos você se sente como o “menos um”.</p>
<p>    Futebol sempre foi para mim uma espécie de aquário onde nadam os peixinhos uniformizados da saúde (que é o esporte) e da euforia (que é alegria coletiva). Quando é algo dramático, explode assim, feito vulcão. Dentro do estádio, tudo que é vivo fica estático quando a memória registra nos livros coloridos dos arquivos o momento mais bonito que é a feitura de um gol. Claro que nem todo gol é bonito, não é lindo feito pintura. Tem gol feio que é querido, mas um gol contra é sempre doloroso, horroroso, indesejável, abominável.<br />
  Daniel Piza escreveu aqui há alguns dias que comparar futebol com amor é ridículo. Não acho. Amar é se permitir a ser ridículo, e a gente fica melhor quando não se amarra com tanta contenção. Quanto mais imperfeito, mais humano, mais belo. </p>
<p>    Estava ontem vendo futebol pela TV com meu filho Sebastião, de 14 anos. De uns tempos pra cá o futebol entrou em sua vida de um modo muito intenso, poderoso, alucinante. Ocupa sua mente quase o tempo todo. O grande assunto é o São Paulo, os jogos dos adversários, os treinos, as notícias, os programas esportivos, o Campeonato… O futebol, enfim! Falávamos sobre o quão decisivo seria o jogo contra o Internacional e ele segredou com comovente inocência: “Se o São Paulo perder acho que eu vou chorar”. Quando ouvi essa frase fiquei pasmo. </p>
<p>  Não sabia como reagir, como responder, o que falar. Me senti meio ridículo de dizer que eu também sentiria vontade de chorar &#8211; como já sentira em tantas outras ocasiões -, mas achei que seria ainda mais ridículo dizer que ele não deveria se importar tanto com isso. É bom poder chorar nas derrotas, embora o mundo todo o tempo inteiro esteja nos dizendo que o importante é ser feliz. Ser feliz não é apenas sorrir. Espero hoje estar exultante. Mas dois anos depois, não vou dizer que não tenha sido bom aprender a ruir. </p>
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		<title>PERGUNTAS INOCENTES</title>
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		<pubDate>Thu, 22 Oct 2009 16:22:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Nando Reis</dc:creator>
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		<category><![CDATA[dúvidas]]></category>

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		<description><![CDATA[Artigo de 22 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.  
Se até mesmo uma rosa azul os criadores japoneses já inventaram, por que o Palmeiras não poderia pintar o verde de seu uniforme com a ternura de um azul que tem o tom de um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Artigo de 22 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.  </strong></p>
<p>Se até mesmo uma rosa azul os criadores japoneses já inventaram, por que o Palmeiras não poderia pintar o verde de seu uniforme com a ternura de um azul que tem o tom de um céu de verão? Se um cidadão pacato que mora na Terra transforma uma ida à praia numa viagem a Plutão, por que os centroavantes tricolores não poderiam transformar o caminho das redes num labirinto inescapável, que parece não ter fim? Se a experiência de um homem serve para que ele distinga a afobação da urgência, por que os veteranos da bola não poderiam distinguir a cadência da lentidão? </p>
<p>  E por que, ainda, não seriam eles, os tais veteranos da bola, os mais indicados a baixar a velocidade ansiosa dos jovens que jogam o futebol de hoje, pela viagem mercurial da bola que por eles, veteranos, pode ser tão bem passada, que corta o gramado como um foguete voando no espaço sideral sem gravidade e sem cor? </p>
<p>  Se os times sabem que num campeonato de pontos corridos todos os pontos valem a mesma coisa, são iguaizinhos no seu valor, por que será que só na reta final eles começam a se preocupar com os pontos que desperdiçaram tanto no início displicente e moroso? Se o pôr do sol é tão lindo e ocorre todos os dias, por que a gente só vê a beleza do pôr do sol quando está longe de casa, seja em férias ou mesmo num simples fim de semana urbano? Se todos os homens são iguais, por que ninguém dá o devido valor pro futebol feminino? Se os times que caem pra série B se reestruturam e corrigem seus erros numa única temporada, por que as torcidas não vibram quando o descenso tem o imenso mérito desse prêmio? </p>
<p>  Se todos os times começam com chances idênticas, por que terminam de forma tão díspar e contrastante? Se um homem come rápido demais e assim deixa de saborear o paladar da comida é por que ele está desatento com a necessidade de mastigar os alimentos com calma ou por que ele não sente os efeitos de uma má digestão? E se um homem é capaz de engolir os alimentos sem calma, por que ele então deveria jogar o futebol atual como se jogava nos tempos quando um time de futebol de botão era realmente feito com botões? </p>
<p>  Se provavelmente um time vencer todos os jogos que restam e assim, provavelmente se sagrar campeão, por que que então esse time, antes, deixou de vencer tantos jogos, correndo o risco de não ser campeão? Se um atleta brasileiro que é contratado por um time europeu sente tanta falta de feijão, por que ele não usa uma parte de seu salário milionário para estocar o tão desejado grão? </p>
<p>  Se no inverno a gente sente mais sono e não quer levantar da cama, por que tanta gente detesta o horário de verão? Se os juízes são escalados em rodízio ou por sorteio para serem mais isentos e imparciais aplicando as regras com distinção e critério, por que os que escalam os juízes não deveriam estar sujeitos aos mesmos critérios de revezamento, sob rigorosa e regular revisão? </p>
<p>  Se o Brasil não possui ao menos um único estádio em condições de receber com dignidade e respeito nossos torcedores patrícios, por que foi escolhido para sediar uma Copa que é muito mais exigente por que precisa atender as exigências de seus patrocinadores europeus? Se o Brasil não soube o que fazer com as obras super-hiper-faturadas e, mesmo assim, mal feitas do Pan de 2007, por que o Brasil além de sediar a Copa de 2014 se julga apto também a sediar as Olimpíadas de 2016? Se o ovo não veio antes da galinha, por que acham que a América foi descoberta por Colombo? </p>
<p>  E se por fim, houvesse resposta para todas perguntas cretinas, cessaria a necessidade de tanta ilusão?</p>
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		<title>GENERALIDADES UBATUBANAS</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Oct 2009 17:32:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Nando Reis</dc:creator>
				<category><![CDATA[Boleiros]]></category>
		<category><![CDATA[Argentina]]></category>
		<category><![CDATA[rivalidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Artigo de 15 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.
Vim passar uns dias em Ubatuba na companhia de minha filha, que tem uma semana de recesso escolar. Como chove! Na verdade nem é tanta água que cai; a garoa é a forma econômica que a chuva [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Artigo de 15 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.</strong></p>
<p>Vim passar uns dias em Ubatuba na companhia de minha filha, que tem uma semana de recesso escolar. Como chove! Na verdade nem é tanta água que cai; a garoa é a forma econômica que a chuva encontra para se perpetuar como angústia e dúvida. Mas há nessa brancura infinita do céu encapado a graça das cores ressaltadas. O verde do gramado fica tão mais verde quando encharcado, e todos os outros tons de verde parecem encontrar sua identidade na diversidade dessa cor única que tem por semelhança a qualidade vegetal de ser clorofila. Nesse silêncio rompido de vez em quando por um ou outro carro que risca no alto o asfalto da estrada, berram também histéricas e ocasionalmente as maritacas revoando na algazarra de seu bando. Volta a chover e o som da água a todos os outros cessa. E ponto.</p>
<p>Longe da vida urbana, deixei também na minha casa o conforto dos inúmeros e inúteis canais da TV a cabo. Que nem sempre são tão inúteis assim, principalmente quando oferecem o muito de tudo que é jogo de futebol. Afinal, justamente a semana de meu retiro está coalhada de jogos importantes &#8211; e muito, muito interessantes – que a TV aberta daqui não brindará pela retransmissão da grade de Resende. Só vai ter Brasil e olhe lá! Desde sábado intercalam-se jogos do Brasileiro, das Eliminatórias e do Sub-20. Beleza.</p>
<p>Claro que o computador é uma forma de acesso a informação imediata, mas sem conexão direta fico na dependência de acessar de tempos em tempos o contato via discagem telefônica. Uma deliciosa precariedade. Sendo assim, sobram as notícias fornecidas pelos telejornais, ou a publicação matinal dos jornais impressos que chegam pelo café da manhã. O curioso é que eu não sei se a ausência da notícia online aumenta ou não minha ansiedade. Deixa isso pra lá!</p>
<p>Longe daqui a guerra de Montevidéu haverá de deixar cicatrizes e feridos. Acho que os 10 minutos finais do jogo entre Argentina e Peru foram os mais dramáticos (ou seria melhor dizer, épicos? ou patéticos?) que já assisti. Mais incrível do que o gol de Palermo nos acréscimos<strong>, </strong>foi a saída de jogo, quando o jogador do Peru bateu na bola no meio do círculo central e a mandou no travessão! O Peru quase empatou o jogo numa jogada que nem Pelé conseguiu traduzir em gol…</p>
<p>É estranho o que caracteriza uma rivalidade ferrenha como a que nós temos com nossos vizinhos: assisti a esse jogo torcendo racionalmente para que a Argentina não ficasse de fora do Mundial, mas emocionalmente desejando o desastre da desclassificação. Que horror!</p>
<p>Hoje, boa parte da vida futebolística do mundo para o ano que vem já estará resolvida. Para uns poucos ainda restará a chance da repescagem. Para outros, o sonho entrará em recesso por  mais 4 anos. Nós, brasileiros, classificadíssimos, ficaremos um bom tempo sem saber o que é lutar por uma vaga para um Mundial – afinal, estamos também garantidos para 2014, pois seremos os anfitriões.</p>
<p>Daqui da rede onde estou sentado vejo uma bola parada sobre o campo pisoteado. Ontem mesmo jogávamos futebol no gramado ao lado, num 3 contra 3 com golzinho caixote demarcado por estacas de bambu. Muito longe da África, muito antes de 2014, sob a garoa fina litorânea, sobre a verde clorofila do tapete esburacado, durante uma breve hora ensopada, a Copa do Mundo foi disputada aqui em Ubatuba para uma platéia de maritacas ensandecidas, sabiás desconfiados e caramujos adomercidos. Foi lindo.</p>
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		<title>OLHO NA BOLA</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Oct 2009 11:50:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Nando Reis</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Artigo de 08 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.
Segunda-feira agora fui ao oftalmologista para fazer meus rotineiros e anuais exames de vista. Um alto míope como eu tem de vigiar com atenção os descaminhos das mazelas que afligem os olhos. Desde pequeno sofro com a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Artigo de 08 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.</strong></p>
<p>Segunda-feira agora fui ao oftalmologista para fazer meus rotineiros e anuais exames de vista. Um alto míope como eu tem de vigiar com atenção os descaminhos das mazelas que afligem os olhos. Desde pequeno sofro com a miopia, com o astigmatismo, e agora, aos 46, surge a novidade da presbiopia. Para a leitura matinal dos jornais os meus óculos já não resolvem mais a questão do foco e da nitidez. É uma verdadeira dança as manobras que faço com a armação redonda que se ampara no nariz. Acostumado com lentes de contato, passei a semana sem elas para que o exame pudesse ser acurado, como recomenda meu estimado Dr. Jayme Roizemblat. Sob o efeito do anestésico que entorpece a musculatura que comanda a retina e, assim, dilata a pupila, ele revisitou a engrenagem que movimenta meus olhos ao se abrirem para o espetáculo da visão. </p>
<p>  Há um certo e específico exame que me deixa extremamente aflito. Graças às modernidades de hoje, pude ver as ranhuras castanhas de minha íris ampliada numa tela de plasma. Ao ouvir meu suspiro de aflição, o excelentíssimo doutor redarguiu com entusiasmo:  “Aflição do quê? Não existe nada mais lindo do que isso!”</p>
<p>    Pois foi justamente esse comentário revelador do remanescente fascínio que o doutor ainda sente por seu antiquíssimo objeto de estudo, que chamou minha atenção. Aí reside o amor ao ofício, banhado pelas águas correntes da eterna paixão. Para o meu oftalmologista não há nada mais belo do que a íris, a retina, a pupila, todo olho, enfim.                 </p>
<p>  Certa vez, admirado, ouvi de um dentista uma explanação filosófica sobre a existência do ser humano no mundo por meio de uma estupenda analogia que ele fez com a relação entre o dente e a gengiva. </p>
<p>  Brilhante! Fiz esse prólogo aparentemente desconexo para louvar aqui o espetáculo que foi a atuação de Diego Souza no clássico paulista no fim de semana entre Palmeiras e Santos. </p>
<p>  Assisti ao jogo de cabo a rabo, interessadíssimo. E é sempre delicioso assistir a um jogo sem o fervor da torcida pessoal, pois, por maior que seja o seu desejo por um placar, não há chance de gritar um gol com legitimidade se este não é feito pelo seu time de coração. Enfim, assisti a virada do Palmeiras de camarote, e posso dizer que ela nasceu nos pés de Diego Souza.</p>
<p>   Li alguns comentaristas dizendo que o jogador esteve sumido até o momento do primeiro gol. Discordo. Já nos minutos iniciais da partida ele desferiu três poderosos tiros contra a meta alvinegra. E não foram tiros quaisquer. Diego chuta bem, com malícia e força. O primeiro tempo foi parelho, assim como ia sendo o jogo até o Santos abrir o placar. </p>
<p>  Chances o Peixe teve para ampliar. Mesmo depois de levar o primeiro gol, quase empatou. Se não fosse pela categoria individual de Diego Souza, a coisa certamente não teria virado a favor do Palmeiras. </p>
<p>  Nos três gols sua participação foi decisiva. Três lances distintos, três movimentos precisos, vigorosos e incisivos. A cabeçada letal, no primeiro. A ajeitada perfeita, no segundo. E o totozinho que encobriu o zagueiro, no terceiro. Tudo isso aliado e ajudado pela categoria de seus parceiros Cleiton Xavier, Vagner Love e Robert. Afinal, ninguém joga sozinho. A força do ataque do Palmeiras construiu, em poucos minutos, um placar que parecia inalcançável, distante e perdido. Mas volto a exaltar a grandeza do futebol de Diego. E escrevo isso simplesmente para salientar que, assim como meu oculista, Diego Souza é um apaixonado pelo próprio ofício – um sujeito que joga o que ele joga só o faz por amor à bola. </p>
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		<title>BOLEIROS &#8211; 20 E POUCAS PINTURAS</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Oct 2009 12:47:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Nando Reis</dc:creator>
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		<category><![CDATA[infantil]]></category>
		<category><![CDATA[livro]]></category>
		<category><![CDATA[Meu Pequeno São Paulino]]></category>

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		<description><![CDATA[Artigo de 1 de outubro de 2009 da coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de S.Paulo
Segunda-feira agora foi o lançamento do “Meu pequeno são-paulino” livro que escrevi com ilustrações do artista plástico Rodrigo Andrade. Esse pequeno invento literário faz parte da coleção “Meu time do coração”, projeto da Editora gaúcha BelasLetras com alguns [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Artigo de 1 de outubro de 2009 da coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de S.Paulo</strong></p>
<p>Segunda-feira agora foi o lançamento do “Meu pequeno são-paulino” livro que escrevi com ilustrações do artista plástico Rodrigo Andrade. Esse pequeno invento literário faz parte da coleção “Meu time do coração”, projeto da Editora gaúcha BelasLetras com alguns outros exemplares já lançados: Humberto Gessinger escreveu sobre o Grêmio, Serginho Groisman sobre o Corinthians, Fernanda Abreu fez o do Vasco, Gabriel o Pensador o do Flamengo. Embora seja destinado ao público infantil imagino que os livros atendam a todas as idade como se pretende toda a expressão de arte. Digo arte e não é a toa. Embora não queira me isentar com argumentos revestidos de falsa modéstia, no caso do livro que lançamos há um componente que realmente é belo e diferenciado – as pinturas que deram origem às ilustrações.</p>
<p> Quando aceitei o convite do editor, me foi feita a recomendação de indicar um ilustrador que fosse também torcedor do São Paulo. </p>
<p>  Imediatamente pensei em Rodrigo Andrade, artista plástigo e grande amigo meu, colega de escola e de arquibancada desde a adolescência. Já na primeira conversa imaginamos que as ilustrações pudessem vir através da pintura de pequenos quadros à óleo, a partir de fotografias ou mesmo imagens de TV dos grandes momentos das conquistas do nosso time. E vou dizer aqui também sem economia de elogios que o trabalho do artista ficou estupendo, magnífico! No dia do lançamento reunimos todas as telas que ficaram expostas para a apreciação daqueles que se dignaram a prestigiar o modesto evento. Pela primeira vez pude contemplar a série de 20 e poucas pinturas reunidas e penduradas na parede. </p>
<p> Descontando a questão pessoal das imagens tratarem de cenas do meu time de coração, que também haviam sido por mim escolhidas como fatos determinantes da minha história com o São Paulo, posso dizer que o fato de ver o futebol como tema dessa extraordinária coleção de pinturas expôs outra faceta desse esporte apaixonante: a beleza retirada de cada movimento. Assim como uma foto captura do tempo a imagem fragmentada e congelada, na pintura figurativa o recorte é idêntico. A beleza do contorno da perna na hora da explosão do chute mortal; a impressionante envergadura do goleiro quando alça o vôo para defesa inimaginável; a harmonia da diferença dos traços de cada indivíduo no momento clássico da foto do elenco antes do início do jogo; e o próprio estádio repleto e colorido pela paisagem da floresta humana preenchendo os degraus de concreto&#8230;</p>
<p> As cores que compõem o uniforme de cada clube também são elemento importante nessa ligação feita pela cromática coerência. Preto e branco, vermelho e preto, vermelho, preto e branco, verde, azul celeste… Há nessa uniformidade das cores que conjugam uma mesma torcida um campo visual cujo reconhecimento cria uma sensação de conforto por meio desse elemento reconhecível, por essa riqueza compreensível. A cor é um signo tão forte que prescinde da ajuda das palavras. É paisagem visual, com trilha sonora de silêncio, música muda. Os olhos veem o que o ouvido não escuta.</p>
<p> Quando percorri sozinho a linha das pinturas penduradas na parede, com a galeria ainda vazia, meu coração se encheu com a lembrança da multidão alvoroçada de uma tarde ensolarada num estádio.<br />
  Uma emoção aguada e lancinante me inundou de nostalgia. Lembrei de coisas que há muito estavam esquecidas num canto ermo da memória silenciosa. Lembrei de gente que já se foi dessa vida, mas permanece eterna na lembrança de uma saudade perdida. Assim como meu avô, minha mãe e meu amigo Marcelo.</p>
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		<title>BANDO DE LOUCOS</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Sep 2009 14:31:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Nando Reis</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Tuca Veiga]]></category>

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Coisa louca é justamente a paixão, cuja febre quando chega vence a razão porque cega os olhos, vibra e salienta, pois não aguenta o revés do sonho, nem quer que se vá a realidade, mas não tolera [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Artigo de 24 de setembro de 2009 da coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de S.Paulo </strong></p>
<p>Coisa louca é justamente a paixão, cuja febre quando chega vence a razão porque cega os olhos, vibra e salienta, pois não aguenta o revés do sonho, nem quer que se vá a realidade, mas não tolera a idéia de que não há verdade se não for a vaidade da flor daquilo que inventa, fruta que perfuma com cor absoluta. E o futebol é o reino terreno da paixão, da ilusão, da competição, da competência e da incompetência, da falência, da falácia, da política e da picaretagem – do dinheiro, enfim. Porque no fim das contas a única conta que se faz é a das parcelas polpudas que vão depositando a grana graúda no bolso que não tem fundo de quem quer com o dinheiro se refestelar. Tem gente que paga pra ver; tem gente que cobra pra não mostrar. </p>
<p>  Tudo louco, cada dia mais, cada dia mais um pouco e um pouco mais. Pois é assim que os fatos vêm e vão e se sucedem mui velozes ou em extrema lentidão. Como escrevo na quarta o que sai na quinta não foi feito de adivinhação. Portanto suponho: o que fez Kléber ontem à noite? O que ele fez no fim de semana todo mundo soube, todo mundo palpitou, uns chiaram e outros riram, mas o que interessa sempre é o que jogador apresenta em campo. Esse é placar que não depende de loteria e sim daquilo que a vida ensina como a mais possante artilharia &#8211; que é bom fazer e fazer bem! É disso que as arquibancadas dão ou não dão risadas. </p>
<p>E foi justamente nas arquibancadas que o canto de Tuca Veiga se espalhou na voz e na garganta de todos os corintianos, loucos ou não, poucos ou em bando, e dessa graça, dessa magia, o caldo entornou e quase cai em desgraça o que outrora foi só alegria. Pois autor e time e torcida andaram se desentendendo sobre matéria complexa que gera opiniões diversas: tem gente que defende o direito autoral de um modo, tem gente que entende a liberdade justamente do modo contrário. Espero não só que os envolvidos se entendam e voltem a entoar unidos a canção forte e linda, e que a discordância não se perpetue em discórdia nem que o tom não degenere pelos acordes de quem toca lenha na fogueira-blogueira de modo irresponsável, como se um estádio já não fosse um caldeirão de pólvora e gente, puro explosivo humano. Opinião todo mundo tem e é bom mesmo que se queira ter, mas dizer que há verdade naquilo que é questão de interpretação&#8230; Antes de vociferar é melhor refletir em silêncio e com tranquilidade. Até essa discussão, que não compreendo bem o que examina, quando a Fifa se incomoda com a manifestação que a comemoração de um gol defende como bandeira religiosa, étnica ou mexendo em outros vespeiros mais. É recomendável mesmo que cada um exerça seu direito de cultuar deus, deuses, santos ou o diabo, mas que o faça em casa, na liberdade infinita de sua consciência, no horizonte liberto de sua residência que é o seu altar, porque não há razão pra querer que outrem tenha que comungar com aquilo em que vosmecê acredita.</p>
<p> Mas recomendação é uma coisa, cerceamento é outra. Nunca gostei dessa história de punição com cartão amarelo pra quem comemora gol de forma diferente. Tenho sempre a impressão de que essa medida é de intimidação e tem origem na vocação moralista da lei que não vê com bons olhos aquele que tem a faculdade de gozar a felicidade da própria alegria. E agora, o que vai acontecer? Teremos uma cartilha pra aquilo que pode ou não se pode fazer? Embalar neném, beijar a aliança debaixo do esparadrapo e chupar o polegar como criança pode! E o que não pode? Daqui a pouco vão distribuir uma cartilha ensinando como se deve beijar. Ou será que beijar em público também virou atentado?</p>
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		<title>BOLEIROS &#8211; GIGANTESCO ANÃO</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Sep 2009 15:30:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Equipe Nando Reis</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Argentina]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[seleção]]></category>

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Fazia um bom tempo que não esperava um jogo da seleção brasileira como esperei o jogo de sábado passado, contra a Argentina. O clássico continental, para mim, sem dúvida é o grande clássico mundial. Duas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Artigo de 10 de setembro de 2009 da coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de S.Paulo</strong>   </p>
<p>Fazia um bom tempo que não esperava um jogo da seleção brasileira como esperei o jogo de sábado passado, contra a Argentina. O clássico continental, para mim, sem dúvida é o grande clássico mundial. Duas escolas distintas, porém com traços de semelhança que sempre fazem desse encontro um conflito faiscante entre admiração e desprezo. Não foi diferente. A necessidade imperiosa da vitória, importante tanto para a classificação como para a redução da margem de insegurança gerada pelos maus resultados do selecionado sob o comando de Maradona, fez com que a Argentina caísse na armadilha do Brasil. Foi derrotada com relativa facilidade e eu diria mais: foi derrotada algumas vezes na mesma partida. </p>
<p>    A Argentina perdeu uma vez assim que tomou o primeiro gol. Perdeu outra vez quando tomou o segundo: ao cair na repetição da jogada fatal de bola parada a Argentina assumiu sua incapacidade de interpretar o jogo do Brasil – estava nas cordas. E perdeu definitivamente quando não conseguiu sustentar por mais de dois minutos a ligeira vantagem emocional que o belo gol de Dátolo poderia explodir como reação. O resultado foi decretado ali no ato do segundo gol de Luis Fabiano: a Argentina estava acabada.</p>
<p>    O jogo correspondeu à expectativa que eu havia criado e sustentado por semanas. Imaginava que veria um confronto que não seria levado em banho-maria e que, dificilmente, teria como resultado um empate. Embora aparentemente conveniente, a igualdade no placar não fazia parte dos objetivos de nenhum dos oponentes. Chega uma hora que não existe possibilidade de dar ouvidos à razão e a emoção extrai do físico aquilo que o intelecto esconde e protege como garantia e reserva. Não que o jogo do Brasil não tivesse sido armado na frieza da objetividade, pelo contrário. A seleção de Dunga parece ter encontrado um ponto de equilíbrio que mescla autoconfiança com atenção, pragmatismo com tranquilidade, frieza com explosão. Dito assim parece uma máquina mortífera. Se não chega a tanto, no sábado passado foi suficientemente letal para fazer o resultado parecer fácil, o que evidentemente não foi.<br />
    Não deixo de pensar que, se essa receita tivesse sido aplicada na Copa de 2006, o Brasil certamente não teria deixado escapar daquele modo tão bisonho a chance de ser hexa. É inegável que há bastante talento também nesse time, afinal de contas não se joga apenas com disciplina tática. Mas isso é outro assunto, até porque Dunga conseguiu apenas a classificação &#8211; a Copa do Mundo são outros quinhentos.</p>
<p>    Voltando ao início do artigo, disse que fazia tempo que não me preparava tanto para um jogo da seleção. O inusitado de o jogo ter sido num sábado à noite e não num domingo à tarde teve também seu charme. Por feliz coincidência não estava fazendo show nessa noite e pude me reunir com amigos aqui em São Paulo para assistir à partida. De certa maneira esses preparativos me fizeram lembrar da delícia que é esperar um jogo do Brasil durante uma Copa do Mundo.</p>
<p>    O problema é que sempre o ser humano acaba mostrando seu lado obscuro. Nosso próprio técnico, que comanda seus jogadores com eficiência gigante, diante dos microfones revela que seu apelido não veio à toa nem é sem sentido. Quando fala com o mundo, Dunga se encolhe na mediocridade do revanchismo e aí atinge a sua minúscula estatura de anão.</p>
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