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AURORA INSONE Por Equipe Nando Reis

12/11/2009

Artigo de 12 de novembro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.

Tenho cá comigo que o pior momento para as divagações angustiadas que pipocam em forma de insônia é aquele quando a luz vai vencendo a escuridão, quando o sol começa a raiar, quando os primeiros pássaros se fazem ouvir ao longe por seus pios refrescados de orvalho recente.

Dormir, quase que consigo a qualquer hora; é só encostar a cabeça no travesseiro que a respiração já ressoa mais profunda, e a fantasia que promove a invasão do sonho começa a desfilar no pátio volátil da consciência desmaiada. Mas se estou com alguma pendência dependurada no varal dos pensamentos, com algum grilo saltitando no saguão que mora dentro da testa, ou se há um aborrecimento atrapalhando a paz ocasional do espírito, é nessa hora da aurora que o maldito incômodo rouba o tempo precioso do descanso e a cabeça começa a mal pensar. E assim, além do sono, se perde a razão. Tudo fica maior: esquilos ficam do tamanho de ursos, ursos cometem crimes atrozes como os piores humanos, e pequenos pecados viram crimes que, anunciados em cartazes espetaculares, nos condenam sem defesa ou julgamento – deitados de olhos abertos na cama, somos culpados!

Coisa ruim de ter que digerir durante uma noite de sono é derrota no futebol, ainda mais assim, em reta final de campeonato. Pior ainda quando você acha que foi garfado. Digo isso pensando em todos os palmeirenses, na noite terrível que tiveram de domingo pra segunda, depois do mau resultado contra o Fluminense. “Aquele gol do Obina… Ah! como aquele gol pôde ser anulado?” Sim, um gol mal anulado como aquele interfere – e muito! – no resultado da partida. E tem a agravante de ter sido anulado pelo mesmo árbitro que, entre muitos outros erros recentes, marcou um pênalti numa jogada em que o centroavante caiu quando entrava sozinho dentro da área – se não foi numa formiga, certamente ele tropeçou em sua própria sombra…

Essa questão da arbitragem no futebol é assunto que precisa urgentemente ser revisto em todos os aspectos: além da arbitragem existem problemas com os julgamentos. Se não bastasse a desastrada anulação do gol de Obina, os palmeirenses ainda foram brindados com a revelação de que a condenação de Vagner Love há duas semanas foi determinada pela cor de suas trancinhas. Segundo a diretoria alviverde um auditor presente no tribunal insinuou que, se as tranças do centroavante fossem rubro-negra, ele teria sua pena abrandada. Onde já se viu isso?

A qualidade das arbitragens anda tão baixa, que é difícil dizer se algum time tem sido mais prejudicado que outro. Todos têm queixas e é provável que todas as queixas tenham fundamento. E o problema fica maior sabendo que aquilo que os árbitros descrevem nas súmulas é julgado por profissionais que podem usar como agravante ou atenuante para seus pareceres, a cor da camisa, o peso de um distintivo ou a sua birra com uma agremiação que não lhe agrada.

Evidentemente bater num juiz não resolve nada. A última coisa que precisamos é de mais incentivo para a violência como solução para as divergências, sejam elas futebolísticas, político-partidárias, socioeconômicas ou meramente sentimentais. Mas se somos todos humanos e falíveis, não seria o caso de estender essa prerrogativa a todas as esferas dessa engrenagem? Um auditor não pode declarar isso impunemente.

Sei o quanto um gol mal anulado pode atrapalhar nosso sono, roubar o sonho da conquista de um campeonato. Para essas coisas não existe medida certa.

Tem gente que sofre por amor, tem gente que mata por nada, tem gente que morre por um gol, tem gente que chora só de ouvir o nome da pessoa amada. É assim.

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DOIS ANOS DEPOIS Por Equipe Nando Reis

29/10/2009

Artigo de 29 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.

Há dois anos uma revelação indesejada descaiu sobre mim com o impacto de uma bomba, com a força invisível de um furacão. Cada um de nós tem seu pequeno baú de segredos, de pensamentos inadequados, de desejos inconfessáveis que respiram o ar rarefeito do sótão da mente incongruente, que só enxergam na luz com extrema dificuldade, pois foram criados na sombra, no canto protegido e esquivo que busca o retiro da escuridão. E não há nada de errado em não querer ser visto por todos o tempo inteiro. Buscar o refresco do recreio do silêncio das vozes alheias, o sossego do afastamento do convívio com os outros, mesmo que seja pelo o átimo de um segundo, pelo instante breve de poucos minutos, pelo degelo desértico da espera dos meses, pelo monólito dos anos seguidos e infinitos, por uma vida inteira… Faz parte. O que há de errado em querermos mudar de lugar, mesmo sem garantias de que venhamos a conseguir? Uma revelação não traz consigo necessariamente a resposta do seu entendimento; não há bula se não há remédio, não há chave onde não há portão.

Curioso é lembrar que justamente há dois anos o Campeonato Brasileiro estava nessa mesma fase, próximo ao desfecho. Lembro bem de um jogo de importância capital que não pude assistir no campo. Prostrado na cama, as imagens do estádio lotado provocaram em mim um sentimento de medo e desolação.

Quando você se sente mal fisicamente é estranho olhar para uma multidão. Ela exacerba o confinamento desse momento excludente, e a relação com o coletivo soa como enfática expulsão. Ao ver todos juntos você se sente como o “menos um”.

Futebol sempre foi para mim uma espécie de aquário onde nadam os peixinhos uniformizados da saúde (que é o esporte) e da euforia (que é alegria coletiva). Quando é algo dramático, explode assim, feito vulcão. Dentro do estádio, tudo que é vivo fica estático quando a memória registra nos livros coloridos dos arquivos o momento mais bonito que é a feitura de um gol. Claro que nem todo gol é bonito, não é lindo feito pintura. Tem gol feio que é querido, mas um gol contra é sempre doloroso, horroroso, indesejável, abominável.
Daniel Piza escreveu aqui há alguns dias que comparar futebol com amor é ridículo. Não acho. Amar é se permitir a ser ridículo, e a gente fica melhor quando não se amarra com tanta contenção. Quanto mais imperfeito, mais humano, mais belo.

Estava ontem vendo futebol pela TV com meu filho Sebastião, de 14 anos. De uns tempos pra cá o futebol entrou em sua vida de um modo muito intenso, poderoso, alucinante. Ocupa sua mente quase o tempo todo. O grande assunto é o São Paulo, os jogos dos adversários, os treinos, as notícias, os programas esportivos, o Campeonato… O futebol, enfim! Falávamos sobre o quão decisivo seria o jogo contra o Internacional e ele segredou com comovente inocência: “Se o São Paulo perder acho que eu vou chorar”. Quando ouvi essa frase fiquei pasmo.

Não sabia como reagir, como responder, o que falar. Me senti meio ridículo de dizer que eu também sentiria vontade de chorar – como já sentira em tantas outras ocasiões -, mas achei que seria ainda mais ridículo dizer que ele não deveria se importar tanto com isso. É bom poder chorar nas derrotas, embora o mundo todo o tempo inteiro esteja nos dizendo que o importante é ser feliz. Ser feliz não é apenas sorrir. Espero hoje estar exultante. Mas dois anos depois, não vou dizer que não tenha sido bom aprender a ruir.

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GENERALIDADES UBATUBANAS Por Equipe Nando Reis

15/10/2009

Artigo de 15 de outubro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.

Vim passar uns dias em Ubatuba na companhia de minha filha, que tem uma semana de recesso escolar. Como chove! Na verdade nem é tanta água que cai; a garoa é a forma econômica que a chuva encontra para se perpetuar como angústia e dúvida. Mas há nessa brancura infinita do céu encapado a graça das cores ressaltadas. O verde do gramado fica tão mais verde quando encharcado, e todos os outros tons de verde parecem encontrar sua identidade na diversidade dessa cor única que tem por semelhança a qualidade vegetal de ser clorofila. Nesse silêncio rompido de vez em quando por um ou outro carro que risca no alto o asfalto da estrada, berram também histéricas e ocasionalmente as maritacas revoando na algazarra de seu bando. Volta a chover e o som da água a todos os outros cessa. E ponto.

Longe da vida urbana, deixei também na minha casa o conforto dos inúmeros e inúteis canais da TV a cabo. Que nem sempre são tão inúteis assim, principalmente quando oferecem o muito de tudo que é jogo de futebol. Afinal, justamente a semana de meu retiro está coalhada de jogos importantes – e muito, muito interessantes – que a TV aberta daqui não brindará pela retransmissão da grade de Resende. Só vai ter Brasil e olhe lá! Desde sábado intercalam-se jogos do Brasileiro, das Eliminatórias e do Sub-20. Beleza.

Claro que o computador é uma forma de acesso a informação imediata, mas sem conexão direta fico na dependência de acessar de tempos em tempos o contato via discagem telefônica. Uma deliciosa precariedade. Sendo assim, sobram as notícias fornecidas pelos telejornais, ou a publicação matinal dos jornais impressos que chegam pelo café da manhã. O curioso é que eu não sei se a ausência da notícia online aumenta ou não minha ansiedade. Deixa isso pra lá!

Longe daqui a guerra de Montevidéu haverá de deixar cicatrizes e feridos. Acho que os 10 minutos finais do jogo entre Argentina e Peru foram os mais dramáticos (ou seria melhor dizer, épicos? ou patéticos?) que já assisti. Mais incrível do que o gol de Palermo nos acréscimos, foi a saída de jogo, quando o jogador do Peru bateu na bola no meio do círculo central e a mandou no travessão! O Peru quase empatou o jogo numa jogada que nem Pelé conseguiu traduzir em gol…

É estranho o que caracteriza uma rivalidade ferrenha como a que nós temos com nossos vizinhos: assisti a esse jogo torcendo racionalmente para que a Argentina não ficasse de fora do Mundial, mas emocionalmente desejando o desastre da desclassificação. Que horror!

Hoje, boa parte da vida futebolística do mundo para o ano que vem já estará resolvida. Para uns poucos ainda restará a chance da repescagem. Para outros, o sonho entrará em recesso por  mais 4 anos. Nós, brasileiros, classificadíssimos, ficaremos um bom tempo sem saber o que é lutar por uma vaga para um Mundial – afinal, estamos também garantidos para 2014, pois seremos os anfitriões.

Daqui da rede onde estou sentado vejo uma bola parada sobre o campo pisoteado. Ontem mesmo jogávamos futebol no gramado ao lado, num 3 contra 3 com golzinho caixote demarcado por estacas de bambu. Muito longe da África, muito antes de 2014, sob a garoa fina litorânea, sobre a verde clorofila do tapete esburacado, durante uma breve hora ensopada, a Copa do Mundo foi disputada aqui em Ubatuba para uma platéia de maritacas ensandecidas, sabiás desconfiados e caramujos adomercidos. Foi lindo.

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BOLEIROS – 20 E POUCAS PINTURAS Por Equipe Nando Reis

01/10/2009

Artigo de 1 de outubro de 2009 da coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de S.Paulo

Segunda-feira agora foi o lançamento do “Meu pequeno são-paulino” livro que escrevi com ilustrações do artista plástico Rodrigo Andrade. Esse pequeno invento literário faz parte da coleção “Meu time do coração”, projeto da Editora gaúcha BelasLetras com alguns outros exemplares já lançados: Humberto Gessinger escreveu sobre o Grêmio, Serginho Groisman sobre o Corinthians, Fernanda Abreu fez o do Vasco, Gabriel o Pensador o do Flamengo. Embora seja destinado ao público infantil imagino que os livros atendam a todas as idade como se pretende toda a expressão de arte. Digo arte e não é a toa. Embora não queira me isentar com argumentos revestidos de falsa modéstia, no caso do livro que lançamos há um componente que realmente é belo e diferenciado – as pinturas que deram origem às ilustrações.

Quando aceitei o convite do editor, me foi feita a recomendação de indicar um ilustrador que fosse também torcedor do São Paulo.

Imediatamente pensei em Rodrigo Andrade, artista plástigo e grande amigo meu, colega de escola e de arquibancada desde a adolescência. Já na primeira conversa imaginamos que as ilustrações pudessem vir através da pintura de pequenos quadros à óleo, a partir de fotografias ou mesmo imagens de TV dos grandes momentos das conquistas do nosso time. E vou dizer aqui também sem economia de elogios que o trabalho do artista ficou estupendo, magnífico! No dia do lançamento reunimos todas as telas que ficaram expostas para a apreciação daqueles que se dignaram a prestigiar o modesto evento. Pela primeira vez pude contemplar a série de 20 e poucas pinturas reunidas e penduradas na parede.

Descontando a questão pessoal das imagens tratarem de cenas do meu time de coração, que também haviam sido por mim escolhidas como fatos determinantes da minha história com o São Paulo, posso dizer que o fato de ver o futebol como tema dessa extraordinária coleção de pinturas expôs outra faceta desse esporte apaixonante: a beleza retirada de cada movimento. Assim como uma foto captura do tempo a imagem fragmentada e congelada, na pintura figurativa o recorte é idêntico. A beleza do contorno da perna na hora da explosão do chute mortal; a impressionante envergadura do goleiro quando alça o vôo para defesa inimaginável; a harmonia da diferença dos traços de cada indivíduo no momento clássico da foto do elenco antes do início do jogo; e o próprio estádio repleto e colorido pela paisagem da floresta humana preenchendo os degraus de concreto…

As cores que compõem o uniforme de cada clube também são elemento importante nessa ligação feita pela cromática coerência. Preto e branco, vermelho e preto, vermelho, preto e branco, verde, azul celeste… Há nessa uniformidade das cores que conjugam uma mesma torcida um campo visual cujo reconhecimento cria uma sensação de conforto por meio desse elemento reconhecível, por essa riqueza compreensível. A cor é um signo tão forte que prescinde da ajuda das palavras. É paisagem visual, com trilha sonora de silêncio, música muda. Os olhos veem o que o ouvido não escuta.

Quando percorri sozinho a linha das pinturas penduradas na parede, com a galeria ainda vazia, meu coração se encheu com a lembrança da multidão alvoroçada de uma tarde ensolarada num estádio.
Uma emoção aguada e lancinante me inundou de nostalgia. Lembrei de coisas que há muito estavam esquecidas num canto ermo da memória silenciosa. Lembrei de gente que já se foi dessa vida, mas permanece eterna na lembrança de uma saudade perdida. Assim como meu avô, minha mãe e meu amigo Marcelo.

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BOLEIROS – GIGANTESCO ANÃO Por Equipe Nando Reis

10/09/2009

Artigo de 10 de setembro de 2009 da coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de S.Paulo

Fazia um bom tempo que não esperava um jogo da seleção brasileira como esperei o jogo de sábado passado, contra a Argentina. O clássico continental, para mim, sem dúvida é o grande clássico mundial. Duas escolas distintas, porém com traços de semelhança que sempre fazem desse encontro um conflito faiscante entre admiração e desprezo. Não foi diferente. A necessidade imperiosa da vitória, importante tanto para a classificação como para a redução da margem de insegurança gerada pelos maus resultados do selecionado sob o comando de Maradona, fez com que a Argentina caísse na armadilha do Brasil. Foi derrotada com relativa facilidade e eu diria mais: foi derrotada algumas vezes na mesma partida.

A Argentina perdeu uma vez assim que tomou o primeiro gol. Perdeu outra vez quando tomou o segundo: ao cair na repetição da jogada fatal de bola parada a Argentina assumiu sua incapacidade de interpretar o jogo do Brasil – estava nas cordas. E perdeu definitivamente quando não conseguiu sustentar por mais de dois minutos a ligeira vantagem emocional que o belo gol de Dátolo poderia explodir como reação. O resultado foi decretado ali no ato do segundo gol de Luis Fabiano: a Argentina estava acabada.

O jogo correspondeu à expectativa que eu havia criado e sustentado por semanas. Imaginava que veria um confronto que não seria levado em banho-maria e que, dificilmente, teria como resultado um empate. Embora aparentemente conveniente, a igualdade no placar não fazia parte dos objetivos de nenhum dos oponentes. Chega uma hora que não existe possibilidade de dar ouvidos à razão e a emoção extrai do físico aquilo que o intelecto esconde e protege como garantia e reserva. Não que o jogo do Brasil não tivesse sido armado na frieza da objetividade, pelo contrário. A seleção de Dunga parece ter encontrado um ponto de equilíbrio que mescla autoconfiança com atenção, pragmatismo com tranquilidade, frieza com explosão. Dito assim parece uma máquina mortífera. Se não chega a tanto, no sábado passado foi suficientemente letal para fazer o resultado parecer fácil, o que evidentemente não foi.
Não deixo de pensar que, se essa receita tivesse sido aplicada na Copa de 2006, o Brasil certamente não teria deixado escapar daquele modo tão bisonho a chance de ser hexa. É inegável que há bastante talento também nesse time, afinal de contas não se joga apenas com disciplina tática. Mas isso é outro assunto, até porque Dunga conseguiu apenas a classificação – a Copa do Mundo são outros quinhentos.

Voltando ao início do artigo, disse que fazia tempo que não me preparava tanto para um jogo da seleção. O inusitado de o jogo ter sido num sábado à noite e não num domingo à tarde teve também seu charme. Por feliz coincidência não estava fazendo show nessa noite e pude me reunir com amigos aqui em São Paulo para assistir à partida. De certa maneira esses preparativos me fizeram lembrar da delícia que é esperar um jogo do Brasil durante uma Copa do Mundo.

O problema é que sempre o ser humano acaba mostrando seu lado obscuro. Nosso próprio técnico, que comanda seus jogadores com eficiência gigante, diante dos microfones revela que seu apelido não veio à toa nem é sem sentido. Quando fala com o mundo, Dunga se encolhe na mediocridade do revanchismo e aí atinge a sua minúscula estatura de anão.

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