Boleiros – Ilusão de Ótica Por Equipe Nando Reis

23/07/2009

Artigo de 23 de julho de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Jornal Estado de São Paulo

E Muricy foi pro Palmeiras! Trinta e três dias depois de ser demitido do São Paulo, time para qual deu um tricampeonato inédito na história do clube, o treinador não vai mudar muito o roteiro que segue da sua casa até o endereço do novo trabalho. Será do outro lado do muro que separam os centros de treinamento dos rivais que o técnico tentará repetir a façanha que o consagrou e o elevou ao patamar de grande treinador – a rotina dos títulos. É impressionante a sua marca: não houve um ano nos últimos nove em que Muricy não tenha conquistado algum título pelos clubes que passou. É disso que trata a vida de um técnico, amealhar vitórias. É isso que esperam dirigentes e torcedores, o único ponto onde eles realmente pensam iguais, pois o resto é um desentendimento só: torcedores gostam de contratações, dirigentes gostam de vender jogadores.

E foi justamente a súbita ausência de vitórias que fez com que a diretoria do São Paulo resolvesse demitir o técnico. A obstinação pela Libertadores, o quarto fracasso seguido na busca do título intercontinental, fez com que o ciclo do treinador se encerrasse em plena andamento do Campeonato no qual ele é o maior colecionador de títulos da era dos pontos corridos, justamente porque é aquele que obteve o maior número de pontos. Pontos esses que nesse momento faltam ao São Paulo e sobram ao Palmeiras. É importante lembrar que mesmo ganhando todos os títulos nacionais que disputou pelo seu ex-clube, não houve um ano em que a permanência do comandante não fosse contestada após as referidas desclassificações nos mata-matas. No São Paulo, Muricy era muito criticado por “não saber” jogar torneios eliminatórios.

Acho curioso esse fascínio que os brasileiros ainda têm pelos confrontos diretos, essa idéia de que quem ganha esse tipo de campeonato é mais viril, mais potente. Torcedores, dirigentes e mesmo alguns cronistas gostam dos tais times “copeiros”, expressão que eu acho um tanto quanto ridícula. Quantas vezes não ouvi a própria torcida do São Paulo apupar seus jogadores após eliminações em mata-matas chamando-os de “pipoqueiros”, “amarelões”, coisas do gênero. Essa relação subliminar entre vencedores de torneios eliminatórios com masculinidade, virilidade, potência sexual é um traço revelador de um pensamento machista, um tanto quanto descolado para o futebol atual de chuteiras tão coloridas e comemorações com tantos beijos.

Jogadores atualmente costumam trocar de time como trocam de roupa, já estamos acostumados. Dormem beijando o escudo que no dia seguinte terão como adversários. Técnicos nunca tiveram essa relação de identificação tão íntima, esse vínculo de sua imagem ligado tão diretamente com os clubes para os quais trabalham. Há aqueles que vão a campo sem qualquer vestígio do distintivo do time em seus ternos mal cortados. Mas há algumas exceções. Da mesma maneira que é difícil imaginar Joel Santana com algum agasalho que não seja o do Flamengo, parece um pouco estranho Muricy com o uniforme do Palmeiras. Mas isso é evidentemente uma impressão que incomodará mais os torcedores tricolores. Daqui a dois meses Muricy e Palmeiras já estarão tão misturados que parecerá que o treinador nasceu na própria Academia.

Enfim, na semana que vem o técnico tricampeão estreará no comando de seu novo clube. Luxemburgo já reassumiu o Santos. Tenho certeza que alguma coisa soará deslocada quando se enfrentarem São Paulo e Palmeiras, assim como Palmeiras e Santos. Mas como nessa vida a tudo a gente se acostuma, certamente esse estranhamento não passará de uma ilusão de ótica.

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5 Comentários

Comentários

  1. Telma Helena

    24 de julho de 2009

    Tudo que precisa provar seja o desempenho masculino, feminino ou viril é no mínimo estranho como a comparação de um macho que vence até o final, que elimina todos os outros seja o grande esperma,vencedor de competições é mais brutal e bestial de que humano, uma prova cabível que uma boa parte da população é hormonalmente irracional.
    E quanto ao Sr. Luxemburgo, creio que o rumo da política será um campo mais amplo para o mesmo, como senador ele deverá se sair muito bem, com sua coleção de gravatas, caras e bocas, eu não iria estranhar, já com o Muricy, “não vou me adaptar”, é como O Marcos no Palmeiras, Rogério Ceni no São Paulo, meus olhos contemplam e manifestam sorrisos.
    Eu não me acostumo com tudo na vida, permito-me, sofrer pelo que eu gostaria que fosse. O mínimo que posso fazer.
    No entanto, desejo que as mudanças façam as partes envolvidas, no mínimo mais “felizes”, mesmo não entendo os motivos, talvez pela condição feminina hormonal ou neurônica que sobrevive no meu processo de civilização.

    “Eu não vou me adaptar, não vou me adaptar”

  2. Ivetinha

    25 de julho de 2009

    Legal o texto. lembrei do meu ex-mnamorado que quando o palmeiras gganhava ele se sentia mais macho, ele ficava repetindo aos gritos:isso que é time, time dev macho. Eu ria muito. e concordo com a Telma, adorei o que ela também escreveu, isso é “hormonalmente irracional” cara ele iria pirar se ouvisse isso.
    Nando vem pra Recife. A gente aqui te espera. Beijinhos

  3. Evy

    27 de julho de 2009

    É…
    É muito estranho ver o Muriçoca com a camisa verde e branca…
    Ainda mais depois dele jurar amor ao tricolor.

    “Não vou me adaptar” seria uma música para essa cena.
    Não consigo. Eu olho, olho novamente e… Parece que o Muricy perdeu uma aposta e está tendo que desfilar com a camisa do inimigo.

  4. Nanda Faria

    28 de julho de 2009

    Isso me lembra de certa forma a Luciana Cristina.. e alguém dizendo que teria 15 filhos..
    Enfim…

  5. Telma Helena

    28 de julho de 2009

    Concordo com Evy,quando vi Muricy “la Palmeira” eu lembrei da música e cantei “eu não cabo mas na roupa que eu cabia… Não vou me adaptar” e também pensei que ele poderia está pagando aposta, tem algo errado.

    E Nanda 15 filhos? Teria que ganhar na mega sena, comprar um Sítio, multipkicar o tempo… Isso é uma ong. Beijos lindas e com saudades.

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