A sagrada refeição Por Equipe Nando Reis

05/11/2009

Artigo de 5 de novembro de 2009 da Coluna Boleiros do Caderno de Esportes do Estado de São Paulo.

Das qualidades que nunca tive e sempre admirei nos outros, uma das maiores é a calma das pessoas que comem devagar. Sou verdadeiramente intrigado com essa capacidade que têm alguns indivíduos de sentar à mesa e, mesmo com fome, saborear a comida em cada movimento do maxilar.

Mastigar trinta e tantas vezes um bom pedaço de carne, como recomendam os que estudam o assunto; deixar o sabor penetrar nas papilas gustativas da língua em vez de empurrá-lo, como uma besta, goela abaixo. Sou daqueles que comem com pressa. Tenho de me vigiar para não engolir os alimentos e bater uma pratada numa velocidade selvagem. Como almoço muitas vezes sozinho, sem a dispersão de uma prosa, acabo comendo rapidamente, com o pensamento mirando a atividade lá da frente, fazendo da sagrada refeição uma tarefa mecânica.

Sei de tudo que há de mal nesse procedimento. Atrapalha a digestão, compromete a respiração, despreza o momento sublime proporcionado pelo paladar, é quase um desrespeito, não só com a saúde, mas com a boa comida que vem à mesa. E o incrível é que tenho a maior adoração pela hora da refeição. Das coisas que mais sinto falta nessa vida de divorciado é justamente a companhia da família à mesa, especialmente a das crianças. Crianças? Nem todos mais. Dois de meus filhos já estão praticamente criados e quando vejo a janela aberta já os imagino batendo suas asas, alçando vôo. O mais velho esse ano se casa. Vai me dar a benção de uma neta, que já tem prometido o nome de santa: Luzia. Mas haverão sempre de ser bondosos os domingos.

Por isso é que gosto tanto de terça-feira – é o dia que meus filhos passam comigo. Invariavelmente, acabo juntando os quatro (o quinto, que é o mais novo, mora longe, em São Leopoldo). Coisa boa é conversa de filho, risada de filho, piada de filho, até mesmo briga de filho. Se há hora certa para aprender a se colocar numa roda, se defender numa rusga, é justamente no meio dos irmãos onde até as mais rudes asperezas se relativizam, pois não há nada mais saudável do que a fraternal competição. Como os pequenos mamíferos, é em família que se aprende a arrancar o seu bocado. Essa semana foi diferente, devido ao feriado trocamos nossa janta para quarta-feira. E quarta é dia de jogo. E como futebol é uma espécie de prato típico nacional, algo entre a pizza e a feijoada, todo mundo curte, mesmo que haja entre nós a fundamental fratura da dissidência, para que possamos praticar a tolerância. No meio de tantos tricolores, é sempre arejado o ponto de vista de minha querida filha santista.

Então volto a dizer que admiro, quase que invejo, aqueles que sabem comer devagar. Aqueles indivíduos que, diante do prato, ruminam como a vaca que enfeita a paisagem do pasto. Às vezes queria ter nascido camelo, para poder apenas ter o prazer de saborear.

Certa vez, estava em Barcelona – antes de todas essas fobias que andam adoecendo a nossa civilização ávida por cuidar da saúde, esquecida de que a morte também é natural – e na mesa ao lado um casal catalão comia uma paella em meio de uma acalorada discussão. A linda moçoila que ardia o vermelho das bochechas cada vez que arguia, revezava uma bela tragada de tabaco com uma boa colherada de seu pão. Quando cheguei ao restaurante eles já estavam lá; quando pagamos a conta eles continuavam em ação, entre baforadas, garfadas e estridente berreiro.

No domingo assisti a uma partida espetacular: Cruzeiro e Fluminense! Eu acreditava que os mineiros estavam vindo pra realizar o ditado. Mas foram comendo tão devagar que acabaram devorados pelo desespero do faminto tricolor.

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6 Comentários

Comentários

  1. Júlia Leite

    5 de novembro de 2009

    http://www.youtube.com/watch?v=QIMhF4Yf6Zs
    Família….Lindo como vc define a refeição!!!!Quero aumentar minha família…
    Um poeta admirável!!! Salve o Ruivo!!!

  2. Hellen Rocha :-)

    6 de novembro de 2009

    Se precisar de companhia ao almoçar e assim comer mais devagar, me chama que eu vou…rs

  3. olga valle

    6 de novembro de 2009

    Júlia, adorei o seu video, sorte para vc e sua família. Espero que vc tenha tantos filhos quanto o Ruivo,eu, tenho três, que são as coisas mais lindas que já vi, e como diz o Ruivo:”meus filhos são os cílios que protegem meus olhos.” Nando , parabéns pela netinha. Também assisti a uma partida espetacular no sábado, no maracanã. Bruno defendendo dois pênaltis, estava ao lado de meu filho do meio, e vê-lo vibrar; não tem preço; plagiando o anúncio.

  4. Helena

    7 de novembro de 2009

    Nossa… o Theo vai casar? Que lindo! Muita luzzz

  5. Telma Helena

    9 de novembro de 2009

    Sem dúvida, os domingos serão sempre bondosos, cheios de esperanças e expectativas.
    Parabéns, você será avô, renascerá de novo em forma de LUZ.
    E não existe nada que nos tornem mais humanos e Deuses que o olhar de um filho, um choro, os passos , um gol, uma disputa por um colo, um pedido por um chocolate, uma briga birrenta, uma molecagem, uma palavra e o mundo renasce.
    Parabéns para o Théo, muito arroz, muita promessa de amor, eternizado em nome de Luzia.

    PS: Eu como devagar. “Mesmo com fome”. E já perdi uma bela sobremesa devido o hábito Também nunca me engasguei.

  6. Bete Arantes

    14 de novembro de 2009

    Nando eu tb como depressa mesmo sabendo o qto faz mal, mais enfim…não consigo mudar.Parabéns,você será avô e tenho certeza que a Luzia terá muito orgulho do avô por ele ser esse fenômeno da música,esse grande poeta e esse maravilhoso pai.Nando…continue encantando nossas vidas com suas canções.Te amo BJS…

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